domingo, 22 de maio de 2016

"Obrigado": o substantivo mais poderoso do nosso vocabulário.

Ditam as regras da boa educação que devemos sempre agradecer a outra pessoa quando nos é dirigido um elogio ou quando nos é oferecido alguma coisa de bom grado, mesmo que não gostemos do que nos é ofertado. Enquanto crianças, engolimos em seco a desilusão e sentimos o ligeiro beliscão no nosso braço, sinal de que está na hora de esboçarmos um sorriso amarelo e mostrarmos que os nossos pais nos educaram bem. Já em adultos, a coisa torna-se mais fácil, embora não menos constrangedora. Mas o cerne da questão é o ato de agradecer por uma ação/ atitude que nos foi dirigida. Isso significa que alguém pensou em nós. Dar é uma atitude maravilhosa, mas saber receber também o deve ser. E, por vezes, somos ingratos nesse receber. 

Com a automatização das nossas vidas (sim, porque a determinada altura tornamo-nos autómatos, escravos das rotinas e do tempo), facilmente nos esquecemos do poder das palavras. Usamo-las porque são instrumentais e nos permitem comunicar com os outros e ter aquilo que queremos, mas renegamos o seu verdadeiro sentido. Dizer um “obrigado” automático é melhor do que não dizê-lo, mas seria muito mais poderoso se realmente o sentíssemos. 

Dei por mim, há dias, a refletir nisso porque tive a consciência de que não estava a sentir o que estava a dizer. Estava tão concentrada nos meus problemazinhos mundanos que não estava a dar espaço para coisas boas se manifestarem. E isto fez-me parar um pouco e dedicar algum tempo a ouvir-me e a ouvir para além de mim. Ouvi o mundo, se é que isto vos faz algum sentido (para mim fez!).
 A poluição sonora que faz parte das nossas vidas impede-nos de dar o devido valor às pequenas coisas. Precisamos de usar filtros para conseguirmos manter-nos mentalmente sãos, com tantos requisitos e exigências. 

Precisamos de ter tempo para dar valor a coisas aparentemente insignificantes mas que, na verdade, se não fossem elas, não sorriríamos tantas vezes. Precisamos de agradecer mais pelo que nos acontece nas nossas vidas e pelas pessoas que temos nelas. Além de um círculo restrito que constitui a nossa muralha protetora e o nosso berço de conforto, também temos outras pessoas que, de alguma forma, fazem parte do nosso percurso. Podem ser amigos, conhecidos, colegas ou simplesmente pessoas que conhecem o nosso trabalho. Todos, quando se aproximam sem intencionalidades dúbias, acabam por tornar alguns eventos ou alguns dias muito mais aprazíveis. 

 Apesar de até termos vidas satisfatórias e de haver inúmeras coisas pelas quais devemos agradecer diariamente, acabamos por cair num de três erros (se não mesmo nos três): tornamo-nos vítimas de nós próprios, caindo numa autocomiseração desesperante e cega; reclamamos da vida mas nada fazemos para mudá-la; ou damos tudo como garantido e, por essa razão, não atribuímos o real valor ao que temos. Em nenhum caso estamos a fazer alguma coisa saudável por (e para) nós. E certamente em nenhuma destas situações estamos a ser gratos pela oportunidade que temos de viver. 

Estudos demonstram que a gratidão tem o poder de recuperar e manter a saúde física e mental, além de atenuar os sentimentos negativos que temos em relação a nós próprios. Se conseguirmos agradecer e sentirmo-nos bem com isso, conseguimos mudar as circunstâncias da vida, pois a nossa visão sobre o mundo altera-se. Passamos a ver as situações de maneira mais positiva, além de que aprimoramos a nossa intuição e percebemos o quão protegidos e ajudados somos ao longo da vida (às vezes, por quem menos esperamos!). 

Saber agradecer é ter um poder ilimitado. Sonhamos encontrar um génio da lâmpada que nos conceda três desejos, quando temos ao nosso dispor uma palavra mágica, que não sendo “abracadabra”, nos abre tantas portas e nos proporciona tanto bem-estar. Obrigado é o substantivo mais poderoso do nosso vocabulário. Mais importante do que dizê-lo, é senti-lo verdadeiramente. Façamos da gratidão um hábito. 

A magia acontece quando existe consonância entre o que pensamos e o que sentimos. O problema é que, algures, no nosso percurso, deixámos de acreditar em magia. E esse é outro erro, porque a magia de outrora tem, nos dias de hoje, outro nome: ciência.

sábado, 14 de maio de 2016


“Mente vazia, oficina do diabo” - assim diz um ditado que, na sua sabedoria popular, me faz iniciar este desabafo. Muitos outros de teor semelhante me ocorrem para ilustrar exatamente a mesma ideia: quem não se preocupa com a sua própria vida tem que, inevitavelmente, preocupar-se com a dos outros e dar o seu parecer crítico público, ainda que o mesmo não tenha sido pedido. E lá vem ele, adornado de palavras sentidas, e... completamente gratuito e dispensável!

O ser humano tem a tendência para espreitar, pelo canto do olho, como corre a vida ao vizinho, ao amigo e ao colega de trabalho. Trata-se, provavelmente, de uma curiosidade inofensiva, uma tentativa de perceber se nos desviámos da “normalidade” e de compararmos estilos de vida. Até aqui, tudo bem. O fenómeno torna-se patológico quando se ocupa um  tempo de vida útil considerável em bisbilhotices, conversas cruzadas só para dizer mal, ou comentários isentos de qualquer filtro. Porque falar, graças a deus (ou a outra coisa qualquer), é um direito, uma liberdade! - Dizem os maledicentes de boca cheia e língua envenenada.

A má educação é atualmente um vírus que a sociedade alimenta e estimula pelos seus programas educativos ineficazes. Fala-se, por exemplo, de cyberbullying, mas muito pouco se faz para controlá-lo ou combatê-lo. É a típica reação social: primeiro todos se chocam e revoltam, depois alheiam-se e deixam que tudo caia no adormecimento (ou esperam que alguém faça alguma coisa!). Apesar de adormecido na cabeça destas pessoas, o fenómeno continua expressivo, apenas nos adaptamos a ele de uma forma completamente néscia. Não há, para mim, nada mais revoltante do que a acomodação visguenta a qualquer coisa negativa. Só revela pobreza de espírito - um outro tipo de vírus, mais resistente e com alto nível de contágio.

Para estes (ecto)parasitas sociais, a crítica é o meio de afetar os outros. Só porque sim. Dou por mim a ver vídeos no youtube sobre temas que gosto, vou ler os comentários e espanto-me com a quantidade de coisas negativas que se dizem (é o rapaz que é feio, são as unhas da fulana que são enormes, é a roupa horrível, é a fraca qualidade do vídeo, é o setting de gravação que é amador, é... é tudo, porque tudo é mau!). Depois, venho até ao facebook e deparo-me, a título de exemplo, com convites para gostar de páginas anti-fulano(a) e para grupos de cortar na casaca contra celebridades. Não sendo suficiente, enviam-me uns links de críticas e revisões sobre os meus livros. Leio-as e, de entre um conjunto significativo de críticas positivas, há também críticas negativas. Até aqui, tudo certo. Claro que enquanto escritora amadora que sou, beneficiaria muito mais se as críticas fossem concretas e me permitissem melhorar. De qualquer forma, não se pode agradar a todos! Ainda assim, o mais incrível disto tudo é que algumas das pessoas que avaliaram negativamente o(s) meu(s) livro(s), são também aquelas que me dão beijos e abraços, que me parabenizam e dizem coisas maravilhosas em apresentações oficiais, sessões de autógrafos, ou quando me encontram esporadicamente. Ora, se isso não é a hipocrisia ao seu mais alto nível, não tenho outra definição. :) A coisa boa, é que isso permite-me ser mais resiliente e, por consequência, mais exigente nas relações. Permite-me também dar menos importância a estas críticas ocas e que pretendem causar-me urticária e beliscar a minha autoestima. Lamento o fracasso da vossa missão.

Há também aqueles indivíduos que se sentem no direito de enviar emails ou mensagens privadas a dizerem o que bem entendem, sem me conhecerem de lado nenhum. A facilidade com que se aborda e critica os outros é assustadora. A gratuidade dos comentários não solicitados é deplorável. E que tal se cada um fizesse este simples exercício: sente-se confortavelmente e feche o olhos. Respire fundo 6 vezes. Quando se sentir tranquilo, responda às seguintes questões:

1) Sou feliz? Sim ou não? Se não, descubra as razões e faça alguma coisa para mudar.
2) Tenho tempo em excesso? Se sim, arranje o que fazer em vez se concentrar na vida dos outros. Ou então inspire-se neles, em vez que torná-los “alvos”. Mostre alguma inteligência emocional.
3) Passo muito tempo a falar dos outros, a pensar neles e a espalhar boatos ? Se sim, get a fuck*ng life! 


A imbecilidade das pessoas que criticam tudo acaba por ridícula. Se existem tantos haters dispostos a investir tempo e energia a falar mal dos outros, é porque os seus alvos têm algo que eles não têm e que, muito provavelmente, nunca irão ter se não abandonarem esse estilo de vida parasitário e pouco dignificante.


A boa notícia é que nunca é tarde para mudar.
A má notícia é que a mudança não é para toda a gente: é só para quem ousa ser feliz.

sábado, 7 de maio de 2016

Redes sociais que de social têm pouco

Sendo nós seres sociais, o estabelecimento de relações interpessoais e afetivas é inevitável. Na maioria das relações que estabelecemos (se não todas!), há uma fase de enamoramento (não no sentido romântico e apaixonado do termo, mas no sentido de cativar). As mais bonitas amizades com pessoas do mesmo sexo ou de sexos diferentes têm esta fase que permite diferenciá-las das demais. No entanto, embora alguns de nós tenhamos consciência de que a amizade é uma forma de amor pura e vitalícia, outros não são capazes de perceber isso ou, a determinada altura, misturam a amizade com qualquer relação de carácter romântico. 

Numa era em que as tecnologias nos privam de uma vida natural e sadia e nos fazem esquecer da infância feliz que tivemos, dos joelhos esmurrados e dos puxões de orelhas por termos feito travessuras, a maneira como estabelecemos novas amizades sofreu algumas alterações. Hoje em dia confunde-se frontalidade com dizer tudo o que apetece à distância de um telefonema, de um monitor de computador ou de uma SMS. E quando as pessoas se encontram pessoalmente, as conversas deixaram de ser profícuas para passarem a ser banais, e a dita frontalidade é apenas uma máscara ou uma vincada falta de educação (“porque tudo o que eu tenho a dizer, digo na cara”, ainda que esse ‘tudo’ seja apenas baboseiras sem sentido de alguém com um ego problemático). 

As pessoas pedem-nos “amizade” nas redes sociais. Aceitamos esses pedidos por motivações diferenciadas (e.g., são pessoas que até conhecemos, são potenciais contactos profissionais, são possibilidades, são cortesias, são números que revelam o quão popular se é). Tenho mais de 1000 contactos no meu perfil pessoal. Porquê? Porque encaro as redes sociais como isso mesmo: uma rede de contactos que me ‘aproxima’ de outras pessoas, sob o ponto de vista pessoal e profissional - e somente isso - pelo que, as minhas partilhas no mural devem ser conscienciosas e feitas de acordo com o grau de envolvência que tenho. Dessa forma, divido os contactos por grupos (amigos, conhecidos, contactos profissionais) e restrinjo as publicações a quem quero restringir. Desse universo de 1000 e poucas pessoas, conheço ou não conheço pessoalmente 79%; 20% são pessoas com quem me cruzei e/ou mantenho contacto na vida real, e apenas 2% são meus familiares ou amigos. E considero ‘amigas’ as pessoas com as quais tenho um tipo de ligação não-romântica, valiosa e que dá um sentido verdadeiro à minha existência, porque não há cobranças nem expectativas irrealistas. Há apenas partilha (por vezes, troca de argumentos em discussões acirradas, mas produtivas e nunca ofensivas). 

Uma das falácias das redes sociais é a de que nos conhecemos a todos. Isso acontece porque não temos filtros e espalhamos a nossa vida. A partir das publicações, sabemos onde fulano foi passar férias, o que fez no fim de semana, com quem esteve, etc.. A privacidade deixou de ser o desejável para se tornar um privilégio ou uma coisa ultrapassada. Depois queixamo-nos de que as pessoas não fazem mais nada senão olhar para a vida umas das outras. Irónico, não? Porque somos nós que fomentamos essa coscuvilhice! De que nos queixamos, então? Como diz o ditado popular “quem está à chuva, molha-se”. 

Outro revés das redes sociais é a necessidade imperiosa de se fazer amizades e de se fomentar encontros. Parece que ninguém está satisfeito com a vida que tem, embora se faça questão de partilhar imagens maravilhosas de uma vida que esconde vulnerabilidades. Mas ninguém precisa de saber disso. O que importa é que os outros vejam o nosso sucesso e o nosso bem-estar! Mas depois, algum tipo de insegurança bate à porta (geralmente pela calada da noite), e são nessas alturas que queremos testar as nossas capacidades de sedução ou simplesmente colmatar carências e/ou validar sentimentos sobre nós próprios (procuramos que os outros nos digam o quão atraentes e interessantes somos, o quão competentes, o quão maravilhosos...). As redes sociais aumentam egos e criam ilusões e fantasias. Potenciam expectativas e revelam o pior de nós, se não soubermos exatamente quem somos, o que queremos e porque usufruímos destas redes sociais - que também têm vantagens. 

Tudo o que é edificado a partir destes contactos fortuitos e mantido dessa forma, não tem espaço para crescer na vida real. As imagens criadas em torno de pessoas que julgamos ser fantásticas é uma espécie de castelo de cartas que vai cair (cai sempre!) mais cedo ou mais tarde. Os sentimentos que se geram com trocas de mensagens são apenas uma reação àquilo que o nosso íntimo deseja - da mesma forma que vêm, vão-se embora se não houver o cuidado de continuar a cativar. Isto é exatamente uma réplica do que acontece na vida real. Só que na vida real, investimos tempo de qualidade com as pessoas; e na vida virtual perde-se tempo e energias a criar idealizações que não passam disso mesmo. 

Há quem diga que, sendo a média de idade de 71 anos, passamos cerca de 22 anos a dormir. Pergunto-me quanto tempo de vida as nossas crianças, os nossos jovens e nós, adultos, perdemos nestas redes que nos tornam pseudo-sociais. 

 A fórmula de cálculo é simples. O resultado é assustador.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Pare e pense, de uma vez por todas. [O elixir da juventude].

Encontrei uma ex-aluna minha enquanto almoçava rapidamente num centro comercial. Ela pediu para se sentar ao meu lado e eu assenti, satisfeita por vê-la.

– Não mudou nada, professora. Continua tão jovem! – Disse-me, na sua voz doce, enquanto me dava dois beijos. Sorri genuinamente, mas durou pouco. – Qual é o seu segredo? Já viu que tenho menos dez anos do que a professora e pareço a mais velha das duas? – Continuou, enquanto se sentava e ajeitava o tabuleiro com uma canja deslavada e um pão simples e aparentemente oco. Eu olhei , desconfortável, para o meu tabuleiro com um McChicken Menu. Ali estava o meu belo exemplo de “vida saudável”.

– Não sejas exagerada. – Ripostei, observando-a atentamente. Tinha um semblante entristecido e vestia roupas relativamente largas, embora com muito boa aparência. Tinha engordado um pouco mas nada que afetasse a sua beleza natural, pelo contrário. Cabelos longos encaracolados e fortes, num castanho muito escuro e brilhante. Feições ainda de menina, com olhos castanhos num formato amendoado. Pele impecável e levemente rosada.

– Engordei sete quilos em dois meses. Fui despedida há duas semanas do local onde trabalhava por não corresponder ao padrão que o público requer, segundo a gerente de loja. – Engoli o pedaço de frango a custo. O desgraçado quis ficar entalado por alguns segundos. Fiquei escandalizada com o que tinha acabado de ouvir. “Despedida por não corresponder aos padrões que o público requer?” Que padrões?! O meu ar de incredulidade deve ter tomado proporções anormais porque a “pequena” esboçou um sorriso. – Não fique assim, professora! Já arranjei outro emprego. E até melhor! – Assegurou. – Menos horas e mais dinheiro ao fim do mês.

– Sim, mas o problema é no argumento do despedimento! Que loja era? Que padrões são esses? – Já estava a começar a deixar que a revolta peçonhenta me dominasse.

– Bom, não foi bem despedimento. Simplesmente o meu contrato chegou ao fim e não mo renovaram. A gerente disse que gostou muito de me ter a trabalhar ali, mas que estava a descuidar-me com a imagem. A minha roupa está apertada porque aumentei de peso e comecei a usar estas roupas mais confortáveis e que não combinam com a maquilhagem que tinha de usar. As minhas colegas são todas mais magras do que eu. A loja tem certos padrões, sabe… Até faz um certo sentido, não acha?

Acenei negativamente com a cabeça. Não, não me faz sentido nenhum. Não, não podes achar isto normal. Não, não foi um despedimento mas foi pior do que isso: foi um pontapé na liberdade, na dignidade e no respeito pelo outro. Atirei-me numa conversa com a “minha pequena” e tentei fazê-la perceber que em lugar nenhum deste mundo alguém deve ser enxotado de um local de trabalho pela aparência. Além disso, se um funcionário está a mudar em algum aspeto, o gerente deve perceber se o problema está dentro do local de trabalho ou fora dele. Cada um de nós tem uma vida, com problemas, com desafios recorrentes e com dificuldades que ninguém consegue ver por detrás de um “bom dia, em que posso ser útil?”. Sorrisos de cordialidade e simpatia funcionam, muitas vezes, como um mecanismo de defesa. Mas só nós sabemos as dores que se escondem por trás desse sorriso. É intolerável que qualquer entidade empregadora teça este tipo de comentários e tenha este tipo de comportamento.

Ao longo da conversa, percebi que a minha ex-aluna teve um sério problema que a levou a ganhar peso (efeitos secundários indesejados). Não conseguiu entrar num ginásio porque trabalhava dois turnos por dia e porque não ganhava o suficiente para tal. Não conseguia comprar roupas novas porque o dinheiro que ganhava era para ajudar a mãe, doente, em casa e para manter a irmã mais nova na escola. A gerente de loja confundiu desleixo com uma tentativa de se manter apresentável e de fazer o seu trabalho como sempre o fez: exemplarmente. Que raio de gerentes frustrados são estes? Precisam urgentemente de formação de como gerar lucros sabendo liderar as suas equipas de trabalho, colocando-as em primeiro lugar. Equipa motivada e segura é equipa vencedora! Mas como ensinar pessoas que não fazem a mínima ideia do que é ser líder e que não gostam daquilo que fazem? Sim, porque alguém que não renova contratos com argumentos deste baixo nível, só pode ser alguém insatisfeito e que quer mostrar alguma espécie de poder sobre o outro. E digo eu, que trabalhei como funcionária em lojas para pagar os meus estudos.

Depois de muita conversa, lá soube o nome da loja. Olhei para o relógio. Ia chegar atrasada à formação que ia dar. Sem problema. Dirigi-me em passos apressados à dita. Olhei para dentro. Uma funcionária tamanho M, e outra tamanho S (sim, vi-as por tamanhos, uma vez que a “minha pequena” se assumiu de tamanho “L”). Ambas cheias de camadas de maquilhagem e trejeitos automatizados. Naquele momento, o mundo parou. Senti pena. Pena de andarmos todos preocupados com medidas e sem juízo nenhum na cabeça. Pena de as mulheres pensarem que terem mamas grandes é o sonho de qualquer homem e que ter o rabo empinado é o objetivo do mês. Pena de se concentrarem em músculos definidos e corpos plásticos exclusivamente para serem o centro das atenções e dos olhares gulosos dos outros. Pena que a celulite se tenha tornado a doença mental feminina mais prevalente do século, e que o bronzeado cor de laranja seja a cor artificial mais apelativa durante todo o ano e num espectro muito limitado que não considera tonalidades claras (“Ah, e tal porque o bronzeado está associado à saúde”. A minha resposta é: vai é cuidar da tua saúde mental, boa?). Pena que o físico seja apenas um instrumento sexual e que se torne mais importante do que a vertente intelectual ou do que o caráter da pessoa. Pena que a comunicação social sobrevalorize padrões de beleza que anulam a variedade do que é realmente belo (até a Barbie já tem Barbies de proporções realistas! – sinal de que ainda há um resquício de esperança para a humanidade). Naquele momento, senti pena por tanta gente cair no ridículo de ter as medidas perfeitas e almejadas e, ainda assim, ser infeliz e tornar a vida dos outros miserável.

A revolta, essa permaneceu enquanto olhava para o interior daquela loja que “despediu” uma miúda cheia de qualidades e lhe colocou na cabeça que a imagem que tem é mais importante do que a própria vida, as suas competências, o seu valor. Mesmo sem querer, ela compara-se com todas as mulheres que não são do tamanho dela, desejando ser, para poder ter as mesmas oportunidades. Que desigualdade é esta? Agora não é apenas a desigualdade de género é também a desigualdade de tamanhos?!

Fiquei especada a olhar para o interior da loja até me aperceber que as funcionárias olhavam curiosas para mim. Desviei o olhar. Vi o autocolante na vitrine “precisa-se colaboradora”, e pensei na “minha pequena” que, apesar de tudo, conseguiu um emprego melhor. Estuguei o passo. Olhei para todas as mulheres com quem me cruzei, de forma consciente, e apercebi-me que elas provavelmente não fazem a mínima ideia do quão bonitas e atraentes são. Os homens e as mulheres que se focam nos detalhes, nas estrias, na cor da pele, na celulite, nos tamanhos, nos dentes desalinhados, na cor do cabelo, nas tendências da moda e nas marcas, e que rebaixam os outros por não serem “perfeitos”, não são pessoas de verdade. São máquinas sexuais estilizadas em que a famosa lei de Darwin irá atuar, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde. São seres pelecípodes que jamais atingirão um nível de sabedoria que lhes permita usufruir das coisas simples e belas da vida.

Felizmente, estou imune a esse mal. E já agora, partilho convosco a resposta à primeira pergunta que a minha ex-aluna fez. O segredo da minha juventude é tão simplesmente sentir-me bem na minha própria pele. Não estou preocupada se sou a antítese ou se não estou em conformidade com os padrões de beleza. Estou em paz com a minha genética e com a pessoa que sou. E isso, é o elixir da juventude.

© Laura Alho

sexta-feira, 21 de agosto de 2015


Escrever é poder - é este o nome da "coluna do autor" do mês de agosto, que escrevi para o blog Livros de Vidro.
Aproveite para conhecer este blog fantástico.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Ao Domingo com... do blog "O tempo entre os meus livros".

A Cris, do blog O Tempo Entre os Meus Livros foi gentil o suficiente para me convidar a participar na rúbrica "Ao Domingo com...".

Eis o resultado final: http://otempoentreosmeuslivros.blogspot.pt/2015/05/ao-domingo-com-laura-alho.html?showComment=1430718988082

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

domingo, 24 de agosto de 2014

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Onde encontrar o livro?




Locais onde o livro "Um paraíso no inferno" está à venda:

* Desassossego (Rua de São Bento, 34; 1200-815 Lisboa)
* Livraria Nun’Álvares (Rua 5 de Outubro, n.º 59; 7300-133 Portalegre)
* Livraria Papelaria 115 (Praça 8 de Maio, n.º 29; 3000-300 Coimbra)
* Livraria Celas (Av. Calouste Gulbenkian; Centro Comercial Primavera, Loja 13; 3000-090 Coimbra)
* Livraria Caminho (Rua Pedro Santarém, n.º 41; 2000-223 Santarém)
* Livraria BrincoLivro (Rua Alexandre Herculano, 301; 3510 – 038 Viseu)
* Livraria de José Alves (Rua da Fábrica, n.º 74; 4050-246 Porto)
* Livraria Esperança (Rua dos Ferreiros, 119; 9000-082 Funchal)
* Nazareth e Filho (Praça do Giraldo, 46; 7000-406 Évora)
* Livraria Graça (Rua da Junqueira, n.º 46; 4490-519 Póvoa do Varzim)
* Aliete S Clara Brito (Avenida 25 de Abril, lote 24 R/C; 8500-511 Portimão)
* Livraria Caravana (Morada Sede: Av. 25 de Abril, Edf. Vila Flôr 6º; 8100-596 Loulé)
* Livraria Papelaria Meneses (Rua da Sobreira, n.º 206; 4535- 297 Paços de Brandão)
* Livraria Lusíada de Libânio Jorge (Rua Teófilo Braga nº 110; 8900-333 Vila Real de Santo António)
* Livraria Oswaldo Sá (Rua 25 de Abril, 435; 4710-913 Braga)
* Livraria Minho Ferreira e Salgado, Lda. (Largo da Senhora-a-Branca, 66; 4710-443 Braga)
Também é possível encomendá-lo diretamente numa Livraria física Bertrand, Book.it e em qualquer Fnac.

Pode, ainda, encomendá-lo pelos sites:
* Chiado Editora: http://www.chiadoeditora.com/index.php?page=shop.product_details&flypage=flypage.tpl&product_id=1938&category_id=1&option=com_virtuemart&Itemid=171&vmcchk=1
* Bertrand: http://www.bertrand.pt/?restricts=8066&facetcode=temas&palavra=um+paraíso+no+inferno
* Fnac: http://www.fnac.pt/Um-Paraiso-no-Inferno-Laura-Alho/a774837
* Wook: http://www.wook.pt/ficha/um-paraiso-no-inferno/a/id/15705583
* Puvill Libros (distribuidora espanhola): http://www.puvill.com/book/um-paraiso-no-inferno/209697

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Obrigada, a todos vós.

Tudo o que nos acontece na vida, não é fruto do acaso. Somos nós que criamos as oportunidades e que fazemos o nosso próprio caminho. À medida que fazemos esse percurso, vamos conhecendo pessoas que nos facilitam ou dificultam o processo - mas todas elas são uma espécie de "treinadores pessoais" que nos proporcionam uma grande bagagem de experiências, que nos fazem desenvolver competências, e que nos permitem escolher que exemplos queremos seguir.

O sucesso pode ser cruel, se o caminho que fazemos não for cuidadosamente pensado. Tão depressa o atingimos, como depressa caímos no esquecimento. É por isso que o mais importante é a maneira como percorremos o nosso caminho. Às vezes é doloroso mas, no fim, é sempre gratificante. E se não se chegou ao fim, é porque se desistiu pelo caminho. Não se chega à meta, se não houver empenho, determinação e compromisso!

Sinto-me bem ao fazer algo que me apraz e que sei que vai ajudar outras pessoas. O meu investimento pessoal (e a minha realização) passam por fazer o que faço (investigação, docência, formações, escrita). Todas estas vertentes têm algo em comum - querer ser um exemplo. Um exemplo enquanto pessoa e enquanto profissional. Uma inspiração para aqueles que duvidam que são capazes de fazer o que quer que seja. Não é admissível dizerem isso, porque só não é capaz quem não tentar e quem não tiver sonhos e objetivos de vida.

Isto para dizer-vos que hoje estou grata por todas as coisas boas que me acontecem. Por todas as oportunidades que surgem. Por todas as pessoas que conheço. Porque sei que fui eu que as atraí, sendo o que sou, e fazendo o que sei fazer. E que tudo o que me acontece é uma experiência. Uma oportunidade de me tornar melhor.

Por isso, obrigada.

sexta-feira, 14 de março de 2014


E eis que no dia internacional da Mulher, 8 de Março, lanço o meu primeiro romance, Um Paraíso no Inferno. Vou andar de Norte a Sul do país a apresentá-lo, por isso, se tiverem oportunidade, apareçam! Para eu vos dar um abraço (finalmente) e partilhar convosco estes momentos especiais!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O livro!




Sim, é verdade.
Oito anos depois, o sonho torna-se realidade.

Um paraíso no inferno, em livro. Um romance no qual encontra muitas repostas e com o qual colocará muitas questões.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Um paraíso no inferno - book trailer

Depois de muito mistério e de um processo que me deixou completamente feliz, eis a novidade revelada!
A partir de agora, a cada dia será revelado um ou outro pormenor, para que vocês sejam os primeiros a conhecerem este projeto que começou, um dia, com um sonho!


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Aquele dia.


Hoje é aquele dia.
Aquele dia em que as flores, os presentes e as delicadezas passeiam de mãos dadas entre os enamorados.
Aquele dia em que os menus dos restaurantes aumentam de preço sob o pretexto de ser um dia especial.
Aquele dia que faz com que se exija uma prenda, sob pena de um amuo prolongado ou de um típico "não gostas de mim?".

Hoje é aquele dia.
Aquele dia repleto de corações e mensagens eternas de amor. Aquele dia que se trocam palavras doces com o(a) companheiro(a). Porque hoje é permitido dizer tudo o que não se diz durante o ano inteiro. Porque se, pelo menos hoje, não houver gestos de amor, então alguma coisa está errada.

Este dia é bonito. É amoroso. É interessante pela sua (verdadeira) história. Mas perde o encanto com tanta hipocrisia e comercialização. Mensagens de amor devem ser ditas todos os dias. O amor deve-se cultivar todos os dias e não apenas hoje. Hoje, é apenas mais um.

Espero e desejo que tenham um Feliz dia de S. Valentim. Mas que amanhã possam fazer o mesmo que fizeram hoje!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

sábado, 18 de janeiro de 2014

O início do mistério...


Entrem comigo numa nova aventura... :)

Será que conseguem adivinhar o que vem por aí?

http://www.youtube.com/watch?v=xfwXS-M2a9E

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Para quem ainda não conhece...

... aqui fica a página do blogue, no facebook.

https://www.facebook.com/umparaisonoinferno

Novidades fresquinhas este fim de semana :)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Onde anda o Natal?

O Natal é uma época tão especial e, simultaneamente, tão vulgar.
É uma altura em que as Famílias deviam estar reunidas, em que as prendas não passariam de lembranças onde não se gasta dinheiro, em que todos pudessem usufruir de um bocadinho de paz, no conforto das suas casas.

À medida que envelheço, parece que a magia do Natal só existe dentro de mim, dentro de um qualquer ponto indefinível e antiquado, preso a memórias de infância que não passam disso mesmo.

Olho à minha volta e vejo todos preocupados com prendas. E o mais preocupante é que eu também sou uma dessas pessoas, porque todos - absolutamente todos - estão à espera de receber algo da minha parte. Porque se não for oferecido algum presente às pessoas que nos são próximas o primeiro pensamento será: "para o ano não levas nada".

Estou um pouco melancólica neste preciso momento. Um pouco preocupada que a noite de amanhã não seja uma noite de sorrisos por se ter a família em casa, mas uma noite focada naquilo que se recebe e no que não se recebe.

Se calhar estou a pintar um quadro negativo.

domingo, 27 de outubro de 2013

Os sonhos são sempre os mesmos


Quando criei este blogue, há muitos anos atrás, tinha um propósito em mente.
Partilhei convosco muitas estórias - algumas que me foram injustamente roubadas, razão que me aborreceu e me fez conter na escrita. Hoje, sei que estive errada em conter-me.
Depois vem o pretexto do trabalho. Vocês assistiram a todo o meu percurso académico e a todas as vicissitudes e conquistas daí inerentes. Este percurso, do qual muito me orgulho, continuou a deixar um espaço em branco que só podia ser preenchido pela escrita.
Volvidos muitos anos, tomei uma decisão: retomar o meu sonho, interrompido. Vou lançar-me ao mundo e espero conseguir realizar-me. Espero que o mundo abrace os meus sonhos e não seja demasiado cruel.

Os nossos sonhos são sempre os mesmos. Se persistem, não importa quanto tempo passe, é sinal que eles são nossos, que nos pertencem, e que os devemos realizar.

Já começaram a viver os vossos sonhos?

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Bom ano!



O ano que termina foi um dos mais difíceis da minha existência. Foram meses de avanços e recuos, de quase desistência, de confrontos com uma série de crenças e pensamentos limitativos que me impediam de sair de um buraco negro criado para me engolir. Basicamente, foi um ano de desafios. Mas não foi pautado apenas por tristezas e sofrimentos. Também tive grandes conquistas e momentos de auto-realização que pude partilhar com muitos.
 Olho para trás, faço a minha retrospetiva pessoal e, inevitável e mentalmente, destaco uma mão cheia de pessoas que foram o meu suporte. Não há palavras para expressar o meu amor e gratidão por acreditarem em mim quando eu própria desacreditei.

Amanhã será a continuação de hoje. A continuação do ciclo. Mas há a ilusão de que tudo será melhor e, por isso, agarramo-nos a essa ilusão como se fosse uma verdade e desejamos que o novo ano nos brinde com momentos felizes. Na verdade, prometemos uma série de coisas a nós próprios que não conseguimos cumprir, mas a magia de que "tudo pode ser diferente" entusiasma-nos.

À Família, aos Amigos, aos colegas, aos conhecidos, àqueles com quem estive, àqueles com quem não estive, a todos os que, de uma forma ou de outra, fazem parte da minha vida, FELIZ 2013.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Espírito (pouco) natalício...



Chegámos àqueles dias tão dotados de ambiguidade. Por um lado, é tudo perfeitamente bonito, mágico, alegre. Por outro, é tudo perfeitamente trágico, injusto, nostálgico. Voltamos à questão dos que têm tudo e dos que não têm nada. Sente-se aquela empatia pelos que pouco ou nada têm, mas rapidamente são esquecidos porque há coisas mais importantes a fazer.
Chegámos àquela altura que começa a ser pensada e preparada logo após o verão. Comprar o quê a quem. Onde. Quanto. Tentar não repetir presentes. Lembrar do que já foi dado. Fazer decorações a gosto. Drama das compras. Deixar para a última hora. Desespero. Trabalho a fazer doçarias tradicionais. Trabalho a ter tudo impecável depois dos desastres nas doçarias. Dormir menos horas para ter tudo pronto a tempo. Ter insónias a pensar no que ainda falta fazer. Chegámos à véspera. Inexistência de sossego. Preparativos atrasados. Jantar da véspera de Natal. Famoso bacalhau. Doces. Prendas. Sorrisos. Conversa fiada. Obrigado para ali, obrigado para acolá. Ah, e tal, não era preciso nada. Mas se não se dá NADA, fica mal, porque é Natal. E até o menino Jesus teve direito a prendas.
Chegámos ao Natal. E o dia 25 é um dia como outro qualquer. Almoço de família. Adeus e até breve. Passa-se assim... Graças a Deus, com saúde. Amanhã, já nem a árvore parece fazer sentido.
Quero que a magia retorne. A magia do verdadeiro Natal. E não este corre-corre que nem dá para aproveitar o melhor da época, nem estar com todas as pessoas da família e amigos que são importantes. Quero não ter obrigações e dar o que quero dar, não obrigando as pessoas a comprarem "qualquer coisa" só porque sentem que o devem fazer. Deviam substituir as prendas por abraços e beijos. Por palavras doces e mimos. Por atos genuínos que marquem a diferença.

Não obstante toda esta verborréia, espero que todos tenham tido um excelente natal.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Cordas


Tenho cordas invisíveis a aprisionarem-me. Umas vezes dá-me a ilusão de estarem a desprenderem-se e quando tento soltar-me, elas comprimem-se, como que a lembrarem-me que ainda estão ali. Por tempo indeterminado.Tenho cordas invisíveis a apertarem-me. Sinto-as nas noites frias. Sinto-as quando o coração está em desassossego. Sinto-as quando sinto que algo está errado, que algo está a ir na direção errada, a caminho do incerto.

Tenho cordas invisíveis a sufocarem-me. Quando os pensamentos soltos se unem para dar forma aos piores pesadelos. Ao impensável. Ao repugnável. Ao doloroso. Quando a mente se torna na pior forma de tortura. Na dúvida. Na sombra. Na névoa.

Quero livrar-me delas. Destas cordas invisíveis que me magoam. Quero um elixir mágico que me cure as feridas e atenue as cicatrizes. Quero que estas cordas que me aprisionam a mente se vão embora. Que o tempo as enfraqueça. Que se desfaçam e não mais me perturbem.

domingo, 28 de outubro de 2012

Promessas


No calor do momento, as pessoas fazem promessas. Dizem coisas bonitas. Parece que há ali uma mística qualquer que nem deixa a pessoa pensar. As palavras saltam pela boca e vão direitinhas ao coração de quem as ouve. Ouvimos o que queremos ouvir. Dizemos o que os outros querem ouvir. E, pior: acreditamos no que dizemos. Fazer uma promessa é enganar duas pessoas: a si próprio e ao outro.

Uma promessa tem um efeito devastador no quadro das expectativas. As promessas criam expectativas elevadas. Adornam a realidade. Pintam um quadro idílico. Fazem acreditar que tudo será perfeito, mesmo quando as adversidades se avizinham. As promessas tornam as piores possibilidades ocas e sem importância. Se alguém nos prometeu algo, então a palavra não será quebrada e, portanto, não há nada a temer.

Tendemos a cair em dois erros fulcrais: tomar decisões quando estamos com raiva e fazer promessas quanto estamos felizes em que tudo é um mar de rosas. E, em ambas as situações, a desilusão é o final esperado.

Mesmo as promessas que foram quebradas são resistentes. Existe um fenómeno chamado "esperança" que cega e injeta uma dose de ingenuidade e falsos "e ses" que nos deixam na dúvida. No fundo, parece que se continua a acreditar na promessa feita outrora e que, por ironia da vida, essa promessa foi interrompida por um qualquer bem maior. E continuamos a alimentá-la e a deixá-la criar raízes. Até ao momento ceifeiro que nos arrancará raízes, promessas e esperança de uma só vez.

E não há pior sentimento do que o vazio que fica, deixado pela desilusão de promessas ocas, outrora feitas com os olhos radiantes.

domingo, 26 de agosto de 2012


Sentou-se no banco da estação de combóios, ao lado de pessoas macambúzias que transparecem os seus problemas nas rugas vincadas e nos gestos impacientes das suas mãos.
Olhou em volta e viu a movimentação padronizada das centenas de pessoas que aguardam combóios para os mais diversos destinos. Aparentemente, parecem gestos naturais, espontâneos, mas depois de uma série de observações, verificou que todas as ações são aprendidas, contextualizadas, estandardizadas.
Nos altifalantes, uma gravação anunciava a chegada do alfa pendular com destino a Lisboa Santa Apolónia.
Uma pontada no coração.
E de, repente, a agitação começou: as pessoas pegavam nas suas malas, alinhavam-se na zona onde era mais provável a "sua" carruagem parar, e aguardavam. Com as mesmas caras macambúzias. Com as mesmas expressões inexpressivas. Se alguém tocava acidentalmente noutra pessoa, vociferavam um "desculpe" automático, resmungado, vazio.
O combóio chegou e partiu em dois minutos. A estação ficou mais vazia, mas com personagens semelhantes. Uns sentados a fingir que lêm o jornal e a olhar por cima das folhas para alguém em particular. Outros em pé, de auscultadores nos ouvidos, refugiados na música, como se o mundo lhes devesse alguma coisa. Alguns com mochilas nas costas, claramente tranquilos. Alguns outros mais agitados que caminham na plataforma incessantemente. Certos casais a despedirem-se calorosamente (jamais desconfiando que aquele poderá ser o último beijo). E um ou outro, como Ela, que estavam ali só para observar o comportamento dos outros. Ou para reviver qualquer memória passada, como se isso a prolongasse. Estranha ideia esta, de que as memórias são "revivíveis" (acabei de inventar a palavra).
Veio mais um e outro combóio. Pessoas partiam e chegavam. Todas elas com histórias para contar. Todas elas com problemas. Todas embrenhadas no seu mundinho, sem cruzar olhares, sem gestos de cortesia, sem brilho nos olhos.
Ao fim de algum tempo, ela levantou-se. Sentiu um aperto no peito, respirou fundo e à medida que caminhava, em silêncio, cumprimentou todos aqueles que a fitavam enquanto ela passava. Eles sabiam que ela não estava ali para apanhar qualquer combóio, e ela sabia que eles iam apanhar o mesmo combóio de sempre.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Bancos de jardim


A figura quase paternal dizia-lhe num tom monocórdico e áspero:
- Há um caminho sinuoso a percorrer. Um caminho que nos faz verter muitas lágrimas, que abre muitas feridas, que deixa cicatrizes profundas no corpo e na alma. Que nos faz sentir vulneráveis e nos faz esconder sob uma capa de frieza tão frágil quanto nós.
- E para onde vamos? Quando sabemos que o nosso caminho terminou?
Ele encarou-a perplexo e proferiu:
- Não termina. Quando estiveres cansada, a vida proporciona-te uma pausa: a morte.
- E se me cansar antes?
- Aproveita todos os bancos que encontrares e senta-te. Neles, muitas pessoas se sentaram para recuperar forças ou simplesmente refletirem.
Ela sentou-se. E ali ficou. Indeterminadamente.

Imagem de Jonathan Glover.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Caminho


Não sei se quero voltar atrás ou seguir em frente. Não sei sequer o que isso quer dizer. Não sei se quero esquecer ou persistir. Não sei qual delas a melhor. Não sei se quero chorar ou sorrir. Não sei simplesmente o que fazer.
Quero despir-me destes sentimentos corrosivos. Quero retomar o caminho que desabou e me separa da felicidade. Seja lá o que isso for.
Mas, desta vez, quero percorrer o caminho com luz. Os olhos não voltarão a ser vendados.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Não acredites.


Não acredites nas pessoas que te tecem demasiados elogios. Não acredites nos silêncios inusitados. Não acredites que as pessoas são verdadeiras. Ninguém é verdadeiro. Ninguém se importa.
Não acredites naqueles que te escondem coisas. Não acredites naqueles que ignoram o que sentes. Não acredites quando te dizem "nada" quando perguntas algo. "Nada" é para os que fogem de alguma coisa. "Nada" é para os que enganam.
Não acredites em promessas. Não acredites em juras de amor. Não acredites uma única vez de que alguma coisa dura para sempre. Nada é para sempre. E ninguém dá valor.
Não acredites em ninguém, nem nos que amas, porque na primeira oportunidade vão provar-te que não importa quão próximos estão de ti - serão os primeiros a arrancarem-te o coração do peito.

Simplesmente, não acredites.

Insomnia



As noites são insones quando a voz da mente fala sem cessar. O silêncio lá de fora é interrompido pelo ruído interminável dos pensamentos que não dão descanso ao corpo, que vira e revira numa tentativa de achar uma qualquer posição confortável. Olha-se para o relógio e vê-se as horas passar com uma rapidez assustadora. O desespero traz mais pensamentos que, num fio condutor, constróem histórias que podem vir a tornar-se verdadeiras e que, se assim for, são pesadelos reais.
E quando, finalmente, nos rendemos ao cansaço, entramos num mundo quase-real de sonhos, que mais não são as manifestações dos nossos pensamentos mais bizarros.
O despertador toca pela manhã e abrimos os olhos, com a sensação de que mais valia não os abrir, porque pelo menos enquanto dormimos, nada é real.

sábado, 28 de julho de 2012

Pausas



Tenho saudades. De escrever a sério. De deixar que as mãos escrevam à velocidade do pensamento. De me deixar levar pelas emoções e de transpor isso para o papel.
Durante muito tempo estive perdida, entre obrigações que me roubaram tempo e me afastaram daquilo que sempre quis fazer.
Se voltar à infância, recordo-me com exatidão das profissões que queria exercer num futuro que, na altura, estava tão distante. Passei por muitas profissões. Passei por muitas decisões. Mas há algo, algo que sempre me acompanhou e que me dá prazer: a escrita. E, nos entremeios, fui delegando esse prazer para segunda, terceiro, enésimo plano.
Hoje, sem porquês associados, apeteceu-me voltar a escrever. Apeteceu-me libertar o todo que está oprimido em mim, à espera de vez para se evadir, para se soltar. Não quero mais pausas.
Apetece-me ser livre. E na escrita, sou-o.

Esquecimento

Às vezes esqueço-me do tempo. Esqueço-me que a vida não pára, embora gostasse que, nalguns momentos, parasse. Esqueço-me das pequenas coisas que me fazem feliz.

Estou no FACEBOOK. Para quem quiser espreitar e tornar-se fã: https://www.facebook.com/umparaisonoinferno

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012


Um Ano cheeinho de coisas boas!
Esqueçamos, por momentos a crise (financeira e, especialmente, de valores) e pensemos em coisas positivas: aquilo que queremos fazer, as pessoas que nos acompanham, o que queremos atingir. E trabalhemos para combater a crise social a que assistimos.

Muita Saúde, Prosperidade e Sucesso!

Com Amizade,
Laura

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Evolução

Olá, fiéis companheiros :)

Escrevo-vos para partilhar convosco a boa-nova: consegui bolsa de doutoramento!
Mais tarde, partilho mais detalhes com vocês. Por agora, fica a novidade a pairar no ar como fogo de artifício num dia festivo!

Até já! *

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Inversão espacial


Pegou no portátil e na pasta de trabalho rumo a mais um dia de trabalho. A irritação que o trânsito lhe causa e o facto de o rádio lhe devolver músicas e discursos que só apelam a desgostos amorosos e a tristezas diárias, fizeram-na encostar o carro e respirar fundo. Uma vez. De há uns dias para cá sentia-se pressionada. Duas vezes. Tinha a impressão que todos esperavam demasiado dela. Três vezes. Sentia-se presa às obrigações, sem tempo para fazer o que queria. Quatro vezes. Os dias passavam a correr e as noites eram flashes de ideias que teimavam em não dar lugar ao sono. Cinco vezes. Precisava parar ou ainda ficava doente. Seis vezes. Calma, precisava de calma. Sete, oito, nove, dez vezes. Depois de explodir emocionalmente e de se acalmar, fez inversão de marcha e voltou para trás, de regresso a casa.
Trocou a roupa, fechou o escritório à chave para não ter um impetuoso peso na consciência, preparou uma bebida fresca e pegou num livro. Abriu a porta do jardim e contemplou-o como não o fazia há muito tempo. Colocou a sua rede de descanso e deitou-se. Ali ficou, embrenhada numa história de ficção, contemplada pelo silêncio e pela tranquilidade de, naquele dia, não ver ninguém e não aturar a agitação rotineira.
Ali ficou, como se não houvesse mais nada a fazer. Até o corpo e a mente dizerem que já estavam recuperados.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Paz...


O que vem depois da vida? Não sei.
O que vem antes da vida? Não sei.
O que existe entre vidas? Não sei.

A minha ignorância no assunto é a sabedoria de outros. Gostava de poder ter frases bonitas e de consolo quando uma pessoa, querida de alguém, parte. Gostava de poder ter uma fórmula mágica que minimizasse a dor da partida. Ou de conseguir ter uma crença tão inabalável como quando assistimos a cerimónias fúnebres diferentes, onde as pessoas cantam e dançam em memória dos que se transformaram, e não há dores agonizantes ou choros reprimidos.
A morte, passagem ou transformação - tenha ela o nome que tiver - é triste, para mim. É triste pela significação que lhe dou. Se tivesse crescido entre budistas, não teria esta concepção triste da morte.

A vida é um mistério insondável. Seremos pretensiosos se acharmos que conhecemos as respostas às questões que tantas vezes nos colocamos, nos momentos de reflexão e seriedade.

Paz de espírito a todos os que recentemente perderam alguém querido...

terça-feira, 26 de julho de 2011

Parar é...

Há quem diga que parar é morrer. Eu prefiro pensar que, de vez em quanto, é obrigatório.
Acho que consegui, finalmente, voltar a tempo tempo para este blogue que tem andado solitário.
Obrigada aos amigos da blogosfera que se mantiveram fiéis e até me escreveram emails, alguns dos quais nem obtiveram resposta (shame on me). Espero que se encontrem todos bem!

Estou entusiasmada por regressar. Fez-me falta!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Bom Ano!


Que 2011 vos traga o melhor que a vida possa oferecer!