segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Feliz Natal

Escrever sobre o Natal para quê?

Para muitos, não passa de uma época forçada, de compras fúteis, de gastos acrescidos.
Para outros é a tradição que continua a sobreviver.
Para mim é o bacalhau cozido, as rabanadas e doces tradicionais, a família reunida, a lareira acesa, as conversas triviais, as prendas pensadas e compradas ao longo do ano. (E apesar disto tudo, há sempre uma pontinha de nostalgia e de senso crítico a pairar.)

Não quero escrever textos adornados e alusivos à quadra. Não me apetece. Fico-me pelo desejo sincero de que estes dias corram bem e tenham alguma da magia que se vai mantendo ao longo dos anos. Porque apesar de tudo... é Natal!

A todos os amigos, conhecidos e leitores que por aqui passam, votos de uma quadra natalícia FELIZ!

domingo, 19 de novembro de 2006

Espaço

Pegou na mala e saíu. Sem uma palavra.
Deixou-me ali, no meio da sala vazia, confuso e sem saber o que fazer. Como se o meu cérebro tivesse parado de funcionar. Nem um estímulo, nem uma resposta. Apenas inércia.
«Se é espaço que queres, é espaço que vais ter.»
Ela não percebia que o espaço a que eu me referia era à minha liberdade individual. Ao facto de eu poder escolher o que vou fazer daqui a dez minutos, se vou ou não beber café, se vou ou não passear pela avenida.
Ela não percebia que apesar de sermos marido e mulher, precisamos de vincular a nossa identidade, precisamos de nos sentirmos vivos, com vida própria.
Ela não percebia que o amor não se esgota mesmo quando os anos passam e os corpos se transformam. É certo, os sentimentos pregam-os partidas. Às vezes sentimos a vida desenxabida e precisamos apimentá-la. Às vezes surge a tentação, às vezes caímos nela, outras sabemos contorná-la. Mas a vida é mesmo assim.
Ela não percebia que o espaço a que eu me referia não era um espaço físico. Não era a distância. Era apenas a minha individualidade.
E eu não percebi porque é que ela se sentia tão insegura. Depois pensei. Provavelmente o espaço dela resumia-se ao meu. Acomodou-se ao longo dos anos. Ou então ela é que está certa e eu estou velho de mais para pensar em ter espaço.
Não sei.
Ela voltou horas mais tarde e com um sorriso estranho perguntou-me:
- Então, aproveitaste o teu espaço?
E eu senti-me preso numa gaiola. Não saí daquela sala nem por um minuto desde que ela saiu. Aproveitei o meu espaço?

sábado, 4 de novembro de 2006

Ilusão


Diz o jovem ao velho:
- Ainda tenho uma vida pela frente!
Diz o velho ao jovem:
- Não te iludas. Quando deres por ela, a vida já passou.

(Bom dia, meus amigos. Saudades, saudades!
Vou aproveitar para vos visitar e limpar as teias de aranha do Paraíso!)

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Partilha



O Outono chegou e com ele as primeiras chuvas a anunciar um Inverno que no calendário ainda tarda a chegar.
Os dias vão-se tornando cada vez mais pequenos e as noites maiores. O tempo parece encurtar-se ainda mais não deixando espaços de tédio entre um afazer e outro.

No meio de toda esta agitação outonal, arranjei tempo para passar por aqui e dizer-vos um olá. Lamento ainda não ter passado nos vossos espaços - espero fazê-lo em breve - mas sei que vocês compreendem, sobretudo se partilhar convosco que o esforçado trabalho que desenvolvi até aqui, deu os seus frutos. Depois de alguns cursos e de várias áreas em que trabalhei, voltei a estudar (e eu que pensei que nunca mais queria ver livros à frente!). Desta vez a área é Psicologia.

Cá vos espero :P

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

A casa assombrada

Diz a lenda que quem ousasse entrar na casa assombrada, seria amaldiçoado pelos espíritos que lá habitam há mais de 200 anos.
Não é daqueles sítios que quase nos magnetizam e nos puxam em sua direcção, mas devo admitir que exerce um certo fascínio e que dá mesmo vontade de dar lá uma espreitadela, sobretudo para matar a curiosidade que se vai instalando gradualmene.
- Supersticiosas, é o que as pessoas são. - Disse o Sr. Joaquim, com um meio sorriso.
- Isto não tem nada a ver com superstição. O que acontece lá é mesmo real. Olha o que aconteceu ao filho da Filó!
- O que aconteceu? - Perguntei, metendo-me numa conversa que era, à partida, para quem estivesse interessado. E eu estava.
Ambos olharam na minha direcção e o senhor, nos seus 75 anos, bem conservados, respondeu-me:
- O filho da Filó ousou meter-se naquela casa e desde então nunca mais foi o mesmo. Não tem sorte na vida. Em tudo o que se mete, sai fracassado.
- Isso é um disparate! - Contrapôs o Sr. Joaquim.
- Disparate? Não foi o único!
- Ó homem, só acredita nisso quem for muito limitado. As maldições não existem. Desde garoto que oiço esta história, mas tal como todas as histórias, esta tambem não passa disso mesmo.
Levantei-me, paguei a minha despesa e sorri-lhes.
- Não se deixe levar pelas histórias deste velho, menina. - Disse o Sr- Joaquim, dando uma palmada seca ao companheiro.
- Não se preocupe. Não sou supersticiosa.

Olhei para a casa, no meio do nada. Decadente, um pouco assustadora. Mas como as aparências não revelam detalhes, resolvi entrar.
Tudo o que vi foram paredes velhas, teias de aranha, uma escuridão terrível. O cheiro a mofo e a velho dominavam o ar. Retratos poeirentos e quadros enormes enchiam as paredes. Descobri objectos lindíssimos. Pequenos tesouros e pedaços de memórias que, curiosamente, ninguém ousava tirar.
Percorri a casa e não vi nenhum espírito nem ouvi nenhum ruido suspeito. Sentia uma ligeira pressão no peito. Nunca sabia o que poderia encontrar, mas fantasmas não era, de certeza. À medida que me ia habituando à escuridão e à "vida ausente" naqueles retratos e objectos, a pressão no peito ia desaparecendo. O medo estava a despegar-se de mim.
Saí de casa, sem qualquer maldição nos ombros. O mundo cá fora continuava exactamente igual.

No dia seguinte, voltei ao café.
- Está diferente hoje, menina.
- Estou? Deve ser do penteado novo! - Brinquei.
- A menina foi à casa, não foi?
«Ora esta, como é que ele sabe?»
- Fui.
- Pois fez muito bem! Como vê, não está amaldiçoada. - E dito isto, começou a rir-se.
Olhei-o com aquele olhar de quem pergunta alguma coisa sem dizer uma palavra.
- Eu sei, eu sei... Deve pensar que estou maluco. Mas o que se passa é que nesta aldeia, como em qualquer outra, as histórias são como as ervas daninhas: crescem de qualquer maneira e em qualquer sítio. E depois há sempre um acrescento ou outro que lhes dão vida. Aquela casa é apenas mais uma fonte de inspiração. Mas devo dizer-lhe que as pessoas acreditam em tudo o que envolve coisas obscuras, está a ver? E a verdade é que as pessoas que vão àquela casa nunca vêm igual.
- Eu vim.
- Não, não veio. Há pessoas que quando saiem de lá, vêm a sua vida reduzir-se. O filho da Filó, esse pobre coitado, nunca teve sorte na vida. Mas também nunca fez um esforço para mudar. Mantém-se preso às raízes. Não sabe o que é voar, percebe? Há outras pessoas que depois de lá entrarem apercebem-se que a vida é demasiado curta e que nós não somos objectos que permanecem no tempo. Cada pessoa identifica-se com alguma coisa naquela casa e é por isso que nunca saiem de lá da mesma maneira que entraram.
- Todas as histórias têm uma moral, é o que me está a tentar dizer.
- Sim.
- E qual é a moral desta?
- A moral é simples: às vezes precisamos de enfrentar os nossos medos, a escuridão, o ar frio e cortante, o coração que mais parece um tambor desenfreado dentro de nós, as teias de aranha, o medo do desconhecido, as casas assombradas que existem mesmo dentro de nós. Se não os vivermos, nunca mais conseguimos sair da capsula protectora que nos impede de pisar o risco. Somos amaldiçoados. E a menina não está almadiçoada. Vejo-lhe nos olhos um horizonte vasto e colorido.
Sorri-lhe e levantei o copo de sumo, num brinde silencioso.
- À vida! - Disse o Sr- Joaquim, piscando-me o olho.
Assenti.
À vida!

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Por aqui, actualiza-se!


Olhei para o calendário hoje. Um de Setembro. Ainda ontem foi Julho, o mês dos sacrifícios, das tentativas e do verão e já estamos em Setembro, o mês do recomeço, das mudanças, da queda das folhas.
Mas não me apetece dissertar sobre o tempo e a rapidez com que ele passa. Aliás, não me apetece dissertar sobre grandes coisas. Nem imaginar estórias. Estou num humor tal, que se pensar demasiado em qualquer coisa, vou acabar num estado lastimável.
Há dias em que o humor nos prega partidas. E a nossa mente brilhante, também.

Então resolvi arregaçar as mangas e actualizar este Paraíso que esteve entretido com as aranhas que foram tecendo as suas teias aqui nos recantos... De qualquer forma, ei-lo de novo!, de carinha lavada e pronto para recomeçar (esperemos) a encher-se de visitas.

Até já.

quinta-feira, 27 de julho de 2006

O equilibrio e o caos


Quando desejamos muito uma coisa e a queremos com toda a força do mundo, há uma energia que põe em acção a maquinaria do universo. Há uma energia que conspira a nosso favor ou contra nós. Quando nos é favorável, sentimos que tudo nos corre bem: motivamo-nos e temos força para escalar a parede mais íngreme em direcção ao céu. Quando não nos é favorável, sentimos bem o peso dos obstáculos que se atravessam no nosso caminho. Sentimos mãos invisíveis a empurrarem-nos, forças negativas a rondarem-nos e a perseguirem-nos. Sentimos que está tudo contra nós e que estamos a atravessar alguma fase negra da nossa existência.

- Mas porquê? Porque é que as coisas têm de ser assim? Porque é que simplesmente não atingimos o que queremos atingir? - perguntou Isabel.
- Porque as coisas têm de ser assim.
- Mas porquê? - Insistiu, irritada. Se havia coisa que estava farta era de frases simples que parecem sábias e que no fundo não respondem a nenhuma das suas questões.
- És a típica adolescente na segunda fase da idade dos porquês! Valha-me Deus, Isabel. As tuas perguntas têm imensas respostas e mesmo que as oiças a todas, nunca te irás satisfazer com elas. E conhecendo-te como te conheço, vais ser teimosa o suficiente para refutares tudo o que te disser, por isso, não sei se te diga ou se te deixe pensar por ti própria.
- Grrr... - um som quase inaudível que me teria escapado se não estivesse à frente da minha própria filha. A nuvem negra pairava-lhe sobre a cabeça. Quase lhe podia tocar.
- Eu só não percebo porque é que as pessoas complicam tanto as coisas e porque é que há tantos entraves ao que queremos atingir, pai. - Disse ela, de um só fôlego, tentanto dominar a sua ira
contra o infinito. Até se tornava divertido.
- Isabel, se toda a gente atingisse aquilo que deseja, não se sentiria o sabor da vitória. Era apenas mais um feito monótono e enfadonho que se tornaria diário. E depois, toda a gente seria igual e teria as mesmas coisas. Agora pensa lá como seria o mundo se todos estivêssemos felizes e contentes...
- Seria fantástico!
- Seria monótono. Tens a falsa ideia de que todos viveriam felizes para sempre, mas esqueces-te que a natureza humana é competitiva. Mais cedo ou mais tarde, voltávamos ao que somos hoje.
- Oh, tá bem! Mesmo assim não percebo porque é que temos tantos entraves até nas coisas menos ambiciosas.
- Olha, porque só assim conhecemos ambas as vertentes da vida: a boa e a má. E porque só assim podes experimentar o equilibrio e o caos e aprender daí alguma coisa.Ela fitou-me, pouco convencida da minha teoria. Mas sei que, pelo menos, iria pegar naquilo que ouviu e esmiuçar tudo até chegar à sua própria conclusão. Adquiriu a capacidade de pensar através de hipóteses e agora faz disso um exercício mental constante. E a utopia, essa está sempre presente na cabeça da Isabel.
Adolescentes!

O equilibrio e o caos. Às vezes experimentamos os dois no mesmo dia, não é?
Lembrem-se, pelo menos, que a conspiração seja ela a favor ou contra nós, tem sempre uma razão de ser. Mesmo que não a compreendamos.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

Um meio regresso


Mini férias, dizia eu. Se eu chamo a um mês de ausência umas mini-férias, então desgraçados dos que só têm uma semana de férias! :p Mas a verdade, meus amigos, é que não fui eu que estive de férias. Por ter a cabeça demasiado ocupada com trabalho, exames e blá blá blá, deixei de escrever no Paraíso. Sim, foi o Paraíso que esteve de férias e não eu.
Deixado o recadinho, despeço-me com um beijão para cada um de vocês e com a promessa de que ainda esta semana escreverei um texto decente :)
Já tenho saudades vossas.

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Ida e volta



Mini-férias - é o que vai acontecer ao Paraíso.
Esta é uma altura chata e complicada para actualizações (como já devem ter reparado pelo intervalo de tempo entre cada texto) e, por isso, resolvi dar férias ao meu Paraíso.

Voltamos em breve, com novidades e novas cores. Afinal, o Verão já está, teoricamente, no seu tempo de vida e merece uma comemoração.

Até lá, um grande beijinho a todos.

P.S. Se nos entretantos quiserem dar notícias, enviem-me emails! :)

segunda-feira, 12 de junho de 2006

Pensamento disperso


Todo problema, depois de resolvido, parece muito simples.
A grande vitória, que hoje parece fácil, foi o resultado de uma série de pequenas vitórias que passaram despercebidas.
E a quantos de nós esta verdade não passa ao lado?

domingo, 28 de maio de 2006

Pedro e Tartan


Meus amigos: estou viva!
O calor chegou e com ele a dormência dos (meus) sentidos.
Para vos provar que estou bem e de volta, aqui fica mais um texto inspirado. Aviso que é longo e que é necessária alguma capacidade de entendimento. Muitas mensagens foram subentendidas propositadamente.
Até breve! :)
* * *

Pedro era um garoto rebelde e curioso o suficiente para os seus 8 anos completos. Brincava sozinho, nunca alinhava em aventuras com os seus colegas e apreciava a vida campestre mais do que ninguém. Passava horas a fio junto ao rio que circundava a quinta onde vivia. Era lá onde costumava dormir a sesta.
Certo dia, porém, algo mágico aconteceu. Junto à árvore onde ele se refastelava, estava uma criatura que não devia ter mais do que 30 centímetros.
Pedro, deveras admirado, aproximou-se mais. Ouviu um ruído vindo de trás e voltou-se, com os sentidos bem acordados, à espera de um novo movimento.
Nada.
Quando voltou a olhar para a árvore, a criatura já não se encontrava lá. Deitou-se, como habitualmente, e fechou os olhos. Havia qualquer coisa no ar, ele sentia-o. O cheiro a verde, a madeira e a jasmim tinha sido substituído por uma essência doce: rosas. O cheiro era inebriante e à medida que se intensificava, Pedro ficava cada vez com mais sono. Até que adormeceu.

Quando (julgou) ter aberto os olhos, estava num mundo completamente diferente. Era noite, estava uma brisa fresca e não havia casas nem ninguém por perto. A árvore tinha desaparecido, assim como o rio, os animais, as flores. Esfregou os olhos, como se isso pudesse acordá-lo do sonho provável que estava a ter.
Nada.
- Ei tu. Vais sair do meu caminho ou tenho de passar por cima de ti?
Pedro olhou à sua volta. Não havia ninguém.
- Aqui em baixo, pá!
O espanto foi tal que Pedro só conseguiu emitir um Ohh! abafado.
Era uma tartaruga que estava a falar com ele. Como era possível?!
- Mas tu... falas?!
- Não, é o fantasma da ópera, se calhar! Claro que falo, pá. És um miúdo estranho. E então? Vais sair do meu caminho ou não?
Pedro olhou uma vez mais à sua volta, assimilando a nova realidade.
- Hello!!! Estou a falar contigo!
- És chata, tartaruga. Onde é que eu estou?
- Em Nocturn. E eu sou um macho, muito macho! Tartan, muito prazer.
- Eu sou o Pedro. Não sei como vim aqui parar... Nocturn? Nunca ouvi em tal coisa.
- Chama-se Nocturn porque aqui é sempre noite.
- Sempre? Deve se muito monótono!
- Ouve, miúdo. Preciso de continuar o meu caminho. Sais ou não?
- Porque não passas à volta?
- Estás a brincar? Não vês que ia demorar muito mais tempo?
- Então mas eu não me apetece sair daqui.
- Custa-te muito? Anda lá, meu! Baza daí.
- Não.
Pedro estava agora a meter-se com Tartan. Aquilo era tudo muito estranho.
- Está decidido então. Vou passar por cima de ti.
- Conversa! Se passares por cima de mim vais cansar-te muito mais.
Por esta e que Tartan não estava à espera. Resultava sempre com os outros.
Mas Pedro era especial. Via-o agora.
- Tens razão. É que estou demasiado velho para andar às voltas.
- E onde queres ir?
- Para a Terra. Vacton, o rei de Nocturn, disse-me que para regressar onde pertenço, tenho de dar três voltas e meia a Nocturn. Já vou na segunda. Mas isto é enorme. Já nem tenho noção de quanto tempo gastei até agora.
- Mas como vieste aqui parar?
- Não sei. Só me lembro de ver uma criatura envolta em pós mágicos e de adormecer. Acordei aqui.
- Ei! Eu também vi essa criatura! - disse pedro, alarmado. - Eu quero ir para casa outra vez! Onde está esse rei?
- Vacton não se mostra a toda a gente. O objectivo dele é povoar este planeta. Então rouba seres vivos a outros planetas.
- Isso é horrível. Exijo falar com Vacton! Leva-me até ele. - Pedro pegou em Tartan. - Anda, eu levo-te.
- Ei, põe-me no chão! Eu tenho medo das alturas.
- Não sejas medricas. Não és tu que te queixas do cansaço? Então aproveita a boleia.
- Ok. Mas vai vai devagar!
Pedro e Tartan vaguearam por Nocturn. Ao fim de algum tempo, desistiram da sua demanda por Vecton.
O tempo passava sem que eles tivesse noção disso. A noite enganava os sentidos e todas as noções adquiridas na Terra eram supérfluas e sem sentido.
Pedro sentiu uma pontada de saudade. Queria voltar.
- Há outra maneira de saires daqui. - Disse Tartan com um ar muito sério e com pena do miúdo.
- Ai sim? Diz-me então!!!
- Há um precipício perto daqui. Atiras-te de lá e vais ter direitinho à Terra.
- E porque nunca te atiraste?
Pausa.
- Porque tenho medo. Sou velho, demasiado lento e prefiro estar vivo em Nocturn do que chegar morto à Terra. Além disso, Vecton prometeu-me fazer-me regressar se desse três voltas e meia ao planeta.
- Ele está a enganar-te.
Pedro pegou em Tartan, uma vez mais, e elevou-o acima da sua cabeça.
- Pára, Pedro. Mete-me no chão!
- Não! Vamos saltar.
- Estás maluco? Vamos morrer.
- Não vamos nada.
- Mete-me IMEDIATAMENTE no chão! É uma ordem! Já!
- Já te disseram que és muito chato?
- E já te disseram que és muito teimoso?
- Por acaso, sim!
Chegaram ao precípicio.
- Bem, isto é mesmo fundo. - Disse Pedro.
- Vamos desistir.
- Não!
Aconchegou Tartan ao seu peito, respirou fundo e atirou-se!
Plof!

Pedro abriu os olhos. Levantou-se muito rapidamente. Olhou em volta.
O rio corria normalmente. Os pássaros chilreavam. A árvore portentosa fazia-lhe sombra e o cheiro a jasmim, verde e madeira inundou-lhe os sentidos.
- Ora, não passou de um sonho! - Disse em voz alta.
Foi então que olhou para o lado e viu uma tartaruga virada ao contrário.
- Tartan?
Nenhuma resposta, pois claro. As tartarugas não falam!
Mesmo assim pegou nela e elevou-a acima da sua cabeça. A tartagura não emitiu nenhum som.
Não era Tartan. Meteu-a no chão e viu a tartaruga retomar a sua marcha lenta, deixando-o para trás.
Encolheu os ombros e voltou a encostar-se à árvore, pensando no sonho que tivera.
- Parecia tão real...
Daquele dia em diante, Pedro começou a prestar mais atenção aos seus sonhos. Eram aventuras que não queria esquecer.

Os sonhos têm algo de mágico. Toda a gente devia saber disso.

segunda-feira, 8 de maio de 2006

Tempo



O tempo. Esse maroto.
Brinca comigo, faz-me viver e passa por mim com tanta rapidez que nem tenho tempo para pensar nele.
Peço desculpa pela minha ausência na blogosfera. Bem vistas as coisas não tinha de pedir desculpa. As nossas vidas estão para lá do mundo virtual, mas apeguei-me tanto a vocês que sinto a vossa falta.

Deixo-vos com mais uma experiência minha. Se tiverem tempo de lê-la :)

Abri a caixa de correio. É um hábito diário. Peguei em tudo o que estava lá dentro e meti em cima da mesa da cozinha, como sempre. Primeiro, calçar os chinelos. Depois meter-me confortável e, finalmente, fazer uma triagem à correspondência.
Uma carta do banco. Uma carta da companhia telefónica. E montanhas de publicidade.
Estava a dirigir-me para o caixote do lixo quando, enquanto revirava a publicidade, vi um envelope metido lá pelo meio. Um pouco sujo, as pontas amarrotadas, mas como uma caligrafia bem legível. Beatrice Delorme B. - Grenoble. O meu coração parou umas fracções de segundo, apanhado de surpresa. Beatrice. A minha primeira penfriend dos tempos de ciclo (coisas de escola). Correspondi-me com ela durante vários anos, sem nunca a ter visto pessoalmente. Depois, houve uma pausa. Cada uma seguiu rumos diferentes e a distância imperou.
Abri o envelope. A caligrafia continuava igual. O cheiro do papel era exactamente igual ao de antigamente e por momentos julguei estar com 15 anos e com o mesmo entusiasmo dessa idade ao abrir a carta ansiada de uma amiga distante.
Devorei-a sem a mais pequena interrupção. Era uma carta leve, despreocupada, contando as últimas. Como se ainda na semana anterior tivéssemos estado juntas. Como se o tempo que passou e nos distanciou fosse uma mera ilusão dos sentidos.
Senti um vazio na barriga. Uma espécie de formigueiro desconfortável. Dei por mim a pensar nos anos que passaram sem que eu notasse grandes diferenças.
O tempo passa. Mas os sentimentos ficam. Sei que permanecem inalteráveis. Beatrice provou-mo.

Se assim não fosse, nada teria sentido.

segunda-feira, 24 de abril de 2006

Beleza


A vida diária num hospital é tudo menos agradável. Asseguro-vos disso.
Embora haja momentos de verdadeiro prazer e de surpresas agradáveis, a luta constante contra as doenças e a falta de carinho - no verdadeiro sentido da palavra - para com os doentes, torna os hospitais um local impessoal e do qual todas as pessoas querem sair o mais depressa possível.
O que deveria ser um sítio para se ir buscar Saúde, é considerado um sítio para morrer. Quem vai para o hospital, não vai de ânimo leve. Nem poderia.
Há médicos e enfermeiros excepcionais. Preocupam-se com o bem-estar do doente e até vão mais além das suas funções profissionais: são humanos. Conversam, acariciam, dão palavras de ânimo a quem precisa delas. Há outros profissionais que julgam que por usarem batas são superiores a tudo. Incluindo às doenças. Mas isso há em todo o lado e em todas as profissisões. Considero, no entanto, que quem trata de doenças, isto é, quem pretende salvar vidas, devia importar-se com a pessoa propriamente dita. Não é fácil trabalhar num hospital, mas se foi a profissão escolhida, há que exercê-la o melhor possível.
Num dia de trabalho, estive com uma senhora com os seus 83 anos de idade. Bem vividos, com alguns excessos, com imensas alegrias mas com cicatrizes que só ela sabe o que custaram a sarar.
- Laurinha, que prazer voltar a vê-la. - Disse-me quando me viu a entrar.
- Então, doçura! Como está hoje?
- Estou bem. Este quarto dá para o parque. Sempre oiço os passarinhos.
Pormenores pequenos que quase ninguém dá por eles. Só mesmo quem está no hospital há semanas.
- Que me trazes hoje para o pequeno-almoço?
- O habitual. Mas tem direito a um bocadinho de compota no pão.
- Ahhh... Isso sim, é uma boa notícia. - Riu-se.
Verifiquei se estava tudo em condições e certifiquei-me que ela estava na posição certa para comer. Ia falando com ela, nos entretantos.
- Hoje está com uma carinha óptima! Está muito bonita!
- Ora, eu sempre fui bonita!
Ri-me com a expressão dela.
- Tem razão. Mas eu só lhe conheço esta beleza.
- Ai, menina. Sabe que eu agora sinto-me mais bonita do que quando tinha 40 anos?
Escutei-a. Sabia que ela ia repetir a história de sempre. Mas fazia-lhe bem. Contar-me aquilo era como um bálsamo tónico para o seu dia. Quando eu saía dali, tinha a certeza que ela suportaria qualquer tratamento com um sorriso nos lábios.
- Sempre tive muitos pretendentes. Mas não era por ser bonita. Era porque era uma moça trabalhadeira. Desafiava tudo e todos. Cozinhava como ninguém e era muito popular. Sabe que os casamentos eram muito diferentes dos de hoje. Antigamente a beleza era uma coisa secundária. Havia quem estivesse prometida desde nascença e havia quem escolhesse o companheiro pelas qualidades que tinha. O que é certo é quando isso acontecia era para toda a vida. - Fez uma pausa para trincar um pedaço de pão com compota. - Eu não era nada bonita. Tinha uma pela sedosa, mas os meus traço eram duros. Mulher do campo, está a ver? Não eram traços como os seus! - Riu-se. - A idade ameniza as pessoas. Ameniza a dureza da vida. Sabemos que a morte vem ajustar contas connosco. Mas já não nos assusta. Chega-se a uma determinada idade e sabemos que ela vem, sorrateira. Sabemos que a vida foi vivida conforme nos foi possível. Estas rugas, Laurinha, são rugas de beleza! - Fez um sorriso na minha direcção.
Fazia-lhe festas nas mãos. A história tinha acabado. Ou pelo menos nas outras vezes acabava assim.
Foi quando me preparava para a deixar que ela me disse:
- Aproveite a sua beleza, menina. Porque nascemos com a beleza que Deus nos dá e morremos com a que merecemos.
Aquilo comoveu-me. Fitei-a, admirada.
- Estou muito sábia, não estou? - Perguntou-me a D. Idalina sorridente. - Li isso algures numa revista.
E riu-se. Um riso cheio de vida. Cheio de vivências. Cheio de orgulho.
Dei-lhe um beijo e despedi-me, convencida de que tinha aprendido mais uma lição.

sábado, 15 de abril de 2006

Vida de Marinheiro


Passei muitas noites insones, tentanto imaginar como seria o barco que me ia acompanhar nas jornadas futuras. Esbocei-o vezes sem conta. Apaguei-o e voltei a desenhá-lo até achar que o mais pequeno pormenor estava perfeito.
Travei uma luta constante contra o sono para construir o meu barco a tempo de apanhar as marés mais calmas.
As minhas mãos, calejadas pelo trabalho, não se importavam com a dureza que iam ganhando noite após noite. Havia um objectivo a atingir que era mais importante que tudo o resto. Não há marinheira que se preze se não tiver o seu próprio barco.
Não fui, contudo, uma relapsa para com o mundo que me rodeava. Pelo contrário. Se trabalhava durante a noite, era precisamente para não destruir durante o dia aquilo que tinha conquistado com tanto esforço. Noites perdidas por uma boa causa.
Quando o dia finalmente chegou, foi como se o mundo fosse, de repente, um sítio muito pequeno para se estar.
Entrei no meu barco e comecei a velejar, de cabeça erguida e olhos radiantes. Em pleno alto mar, senti a minha alma maior que o mundo. O céu já não era um limite. Era uma brincadeira de criança, comparado ao sentimento que sorria dentro de mim. Claro, nem tudo foi um mar de rosas. Apanhei ventos tormentosos, ondas gigantes, marés indescritíveis, chuvas tenebrosas. Verdadeiros infernos marítimos, se assim lhe puder chamar. Foram tantas as dificuldades que me senti desanimar. Mas desistir? Nunca me passou pela cabeça. Se assim fosse, o meu barco não teria qualquer sentido.
Fui pirata a tempo inteiro, desafiando a sorte e o destino. A bandeira, esteada, era a demonstração directa do meu orgulho, da minha razão de viver. Marinheira que sou, marinheira que serei.

Mas todos os marinheiros têm, pelo menos, um dia de gáudio. E o meu é hoje.
A 15 de Abril de 1982 nascia a audaz e empenhada marinheira L. C.!

Deixo as portas do barco abertas, para quem quiser entrar. Hoje não serei uma mera marinheira. Serei capitã!

quinta-feira, 6 de abril de 2006

À noite, chocolate...


Era uma caixa. Simples e sem grandes adornos.
Abri-a vagarosamente, como se se tratasse de algo frágil e precioso.
O laço cor-de-rosa, jazia agora no chão, ao lado dos chinelos.
Sorri, sentindo crescer água na boca, ante a visão gulosa que estava a ter.
Peguei no primeiro bombom e meti-o inteiro na boca. Era suave. Tão suave que se desfez em pouco tempo. Tinha uma nota de caramelo e uma especiaria que desconhecia.
Voltei a olhar para a caixa, repleta de pequenos bombons surpresa. Todos tinham um aspecto maravilhoso. Peguei noutro, aleatoriamente.
Sob uma camada crocante, descobri um delicioso creme de avelã.
O seguinte tinha um pequeno biscoito no meio, embebido em licor. Era delicioso.
Deixei-me escorregar pelo sofá, saboreando os sabores que se misturavam e me provocavam um tipo de prazer indescritível.
Peguei noutro bombom, de olhos fechados. Era aparentemente de chocolate normal. Desta vez, trinquei-o e um delicioso recheio de morango escorregou-me para os lábios.
- Precisas de ajuda?
A tua voz fez-me estremecer. Abri os olhos e sorri-te.
- Por acaso até preciso. Não sei se coma o bombom de chocolate preto ou o de chocolate branco.
Pegaste no bombom de chocolate preto e aproximaste-o da minha boca.
- Primeiro, o de chocolate preto. O seu sabor intenso irá preparar o paladar para melhor apreciar o chocolate branco.
- Não te sabia tão entendido em chocolates.
- Oh! Em chocolates e em muitas outras coisas!
Trincaste o chocolate e deste-me a outra metade. Os nossos olhares sugeriam uma gulodice carnal.
Juntou-se a gula à vontade de comer e o resultado foi uma noite apimentada e aromatizada com chocolate.
- Estou a ver que tenho de te dar mais caixas de chocolate. - Brincaste.
- Deves!
A caixa, agora vazia, não passava apenas de uma doce recordação.

terça-feira, 28 de março de 2006

Metáfora



Chovia.
O mundo parecia perder a vida à medida que o breu da noite caía lentamente. Adivinhava-se um final de tarde tristonho. As pessoas corriam para casa. Os carros molhavam os passeios. A cidade ficaria deserta em pouco tempo.
Andei um pouco, até ao parque onde era habitual encontrarmo-nos. Não te esperava (sobretudo depois da discussão que acabou cada um para o seu lado), pelo que foi uma surpresa inesperada prender os meus olhos nos teus, como se de um íman se tratasse.
Sorri-te e tu devolveste-me o sorriso. De repente, tudo se esfumara. Tudo perdia o sentido. A discussão, as palavras proferidas, os sentimentos mesquinhos e tão banais.
Vieste ao meu encontro, com um guarda-chuva na mão. Quando chegaste, não me disseste uma palavra. Apenas me conduziste até ao nosso banco e puseste o teu braço sobre mim.
- Juntos, enfrentaremos a chuva. - Disseste-me.
Pois. Enfrentar a chuva. Que cai em nós e nos lava dos pecados genuinamente humanos. A chuva miudinha e irritante que nos molha e nos aborrece. Uma metáfora perfeita para a nossa vida.
Encostei a minha cabeça no seu ombro e fechei os olhos, respirando o odor - agora agradável - da chuva.

terça-feira, 21 de março de 2006

Primavera

O Sol começava a estender os seus longos braços no horizonte, acariciando as águas do meu mar, brilhantes e convidativas.
Empurrei o meu barquinho e entrei nele.
A viagem começara.
Só tinha de remar dez minutos por rotas que só eu conhecia. Há uma passagem secreta para um mundo encantado que descobri certo dia, por mero acaso, enquanto passeava nas águas do meu mar. Primeiro parecia-me ser apenas uma rocha enorme e polida, mas estava no meio do mar! Não há rochas no meio do mar. A curiosidade fez-me aproximar. Estava espantada! A rocha era brilhante e parecia flutuar. Como é que nunca tinha visto aquela rocha antes? Toquei-lhe para sentir a superfície polida e foi então que a magia aconteceu: a rocha abriu-se ao meio, indicando-me uma passagem. Era uma espécie de túnel.
Entrei. Ao fundo, avistava uma luz brilhante e colorida. Quando atravessei a passagem, não queria acreditar no que os meus olhos viam: um novo mundo. Encantado, mágico, incrível. Um Paraíso!
Remei nas águas límpidas e transparentes enquanto admirava a paisagem diante de mim.
Desde esse dia, é para lá que vou. Para o meu pequeno Paraíso. Para um pequeno mundo. Só meu.

Detive-me no meio das águas e molhei os pés, olhando para a tela mais bonita do mundo. Reparei que o Paraíso está diferente hoje: tem mais luz, mais brilho, mais cores. Há um arco-íris maravilhoso que não existia antes. Contemplei-o e sorri.

Hoje, o Paraíso brinda à chegada da Primavera.

quarta-feira, 15 de março de 2006

Armadilha


Fechei os olhos e ele levou-me para um qualquer sítio.
- Dá um passo em frente. - Disse-me.
Senti um arrepio. Imaginei todos os sítios possíveis, todos os cenários imagináveis. E se fosse uma partida de mau gosto? E se me quisesse assustar?
Hesitei.
- Vem, não tenhas medo. Estou aqui para te segurar, se for preciso.
Isso queria dizer que havia a possibilidade de eu cair.
Respirei fundo.
Um burburinho agitava-se dentro de mim. Tinha de decidir. Dar um passo em frente ou não.
Dei o passo em frente e tudo parecia desaparecer à minha volta. Senti-me cair num poço vazio e desconhecido, negro como breu.
Uma sensação de vertigem apossou-se de mim. Sentia mil e uma coisas ao mesmo tempo.
Finalmente senti o meu pé tocar em terra firme.
Quando abri os olhos reparei que estava tudo exactamente igual. Ele estava de pé, com os braços estendidos. E eu só tinha avançado mais um passo na direcção dele. Não havia perigo nenhum para mim. Não havia poços, precipícios, fantasmas ou monstros.
O meu coração saltitava depressa demais. Ele abraçou-me.
Os meus sentimentos tinham-me tecido uma armadilha.
- Sabes qual é o problema das pessoas?
Fazia uma pequena ideia, mas preferi que ele me respondesse.
- É que as pessoas não se conhecem o suficiente para saberem controlar os seus sentimentos. São eles que nos fazem puxar a imaginação para além dos limites, para além do real. Criam-nos imagens que aceitamos como muito prováveis e que nos fazem sofrer por antecipação. Quando, finalmente, voltam a si - quando abrem os olhos - apercebem-se que, afinal, as coisas não eram assim tão complicadas.
A resposta já me era familiar mas, mesmo assim, não consegui ter domínio completo sobre o que se passava dentro de mim. Acho, inclusivamente, que é bom não termos controlo absoluto sobre nós. Claro que não lhe disse isso. Talvez lho dissesse quando fosse a minha vez de lhe fazer um teste.
Até lá, vamos ter de saber lidar com as armadilhas que nos aparecem pelo caminho. Cada um à sua maneira.

quarta-feira, 8 de março de 2006

Expectativas


- Sinto-me pressionada. - Desabafou a amiga.
- Então porquê? - Perguntou a outra.
- Sinto todos os olhos cravados em mim, à espera que eu tenha um deslize ou que eu faça alguma coisa contra as regras impostas.
- Estão todos expectantes. Querem saber do que és capaz. És novata, é normal que te olhem com alguma desconfiança.
- Mas isso é prejudicial.
- Só se tu quiseres que seja.
- Ora! Eu não quero, mas sinto-me de tal maneira pressionada que o meu desempenho acaba por ser comprometido, quer queira quer não.
- Ouve, quando vais ao teatro ver uma peça musical, por exemplo, fazes parte de um grupo de espectadores que têm os olhos cravados nos músicos. Se eles cedessem à pressão e se não soubessem lidar com isso, desafinavam na primeira oportunidade. Se fosses a um médico e necessitasses de uma operação, os teus olhos estariam cravados nos do médico, na esperança que ele te dissesse que vai correr tudo bem. Se ele se sentir pressionado, a operação já não vai correr bem. Em todas as profissões há pressão. Tens de aprender a lidar com ela.
- Visto assim, até parece fácil...
- Querida, não és a única a sentir-se observada. Vê o lado positivo das coisas: são esses olhos persistentes que te impelem a seguir em frente. Se fores bem sucedida, esses olhares espelham admiração!
- E se fracassar?
- Não serás a primeira nem a última. Terás de te ver onde erraste e importares-te menos com os olhares dos outros. Lembra-te que também tu tens olhos.
Ela ficou em silêncio por uns segundos e pareceu compreender a mensagem.
Só precisamos de ser o nosso melhor e de fazer o nosso melhor. Os olhares acabam por desaparecer quando não lhes dermos tanta importância.

(História criada ontem à noite, em conversa com uma amiga real)

quarta-feira, 1 de março de 2006

Às duas da manhã


Ele olhou-me. Foi um daqueles olhares que nos conseguem despir e que alcançam o que de mais profundo há em nós. Um olhar intenso, quente. Demasiadamente quente.
Tentei manter o controlo. Não desviei o olhar. Mantive-o fixo - não sem dificuldade - aos olhos pretos magnéticos que me trespassavam o corpo.
Senti uma onde de calor nascer na barriga. Um formigueiro intenso e simultaneamente agradável que nos dá a sensação de vertigem.
Ali estávamos nós, no mais velho jogo da humanidade: a sedução.
Primeiro uma troca de olhares repletos de interesse, depois uns sorrisos disfarçados para prolongar mais o jogo. E depois os gestos que nos fazem esquecer tudo e todos à nossa volta.
Mexi no cabelo.
Ele meteu o copo à boca, deixando antever uns lábios apetecíveis.
Passei a língua pelos lábios, humedecendo-os.
Ele sorriu, maliciosamente.
Cruzei as pernas e a expressão dele revelou que estava completamente rendido. Mais do que isso, a situação estava a fugir-lhe do controlo.
De novo o formigueiro na barriga.
Puxei o cabelo para trás, revelando o pescoço e um pouco do decote.
Bebi vagarosamente, até sentir a garganta inflamar com o álcool da bebida.
E foi então que ele se aproximou um pouco e me incendiou com aquele olhar provocadoramente intenso.
- A menina dança? - Perguntou.
Assenti. O meu corpo clamava por mais contacto físico.
Durante a dança, o jogo continuou, sem pressas. Apanhei-lhe o olhar no meu decote, por várias vezes. Deixei-o contemplar. Afinal de contas, era um jogo. Enquanto olhas, não tocas.
Por momentos, julguei que as coisas iam ter um final arrebatador. A sedução leva quase sempre a um fim.
A música cessara e ele fixou-me, uma vez mais, dizendo:
- Foi um prazer dançar contigo, Luna.
Uma voz calma, quente, rouca.
Se ele não fosse o meu marido, tinha achado estranho o facto de saber o meu nome.
- O prazer foi todo meu, querido. Vamos?
- Sim. Mas quando chegarmos a casa, quebramos o prometido e acabamos o jogo... - Atiçou.
- Talvez. - Respondi, tentando dominar a situação. - Se te portares bem até lá.
Ele riu-se.

A noite prometia. E ainda só eram duas da manhã.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Saber Dar


- Mãe, porque não deste esmola àquele senhor?
- Porque não.
- Isso não é resposta? Ele não merece?
- Não é de confiança, Rita.
- Porquê?
- Pode ser perigoso.
- Mãe! Como é que uma pessoa maltrapilha e com olhar triste pode ser perigosa?
- Ora, tu não conheces o mundo. Não conheces as pessoas. Não sabes do que elas são capazes!
- Começo a saber. Hoje aprendi que existem, pelo menos, dois tipos de pessoas: as necessitadas e as esbanjadoras. As primeiras têm de lutar contra a vergonha de viver na rua e de lutarem por aquilo que necessitam; as segundas gastam todo o dinheiro em coisas fúteis e nunca sabem que o essencial é o que o nosso coração pode dar. E ele pode dar tudo, desde que queiramos.
A mãe parou de caminhar e olhou para a filha.
- Vê lá como falas da tua mãe!
A adolescente desafiou-a com o olhar, pegou na sua mesada e foi dar ao velho senhor que vendia cabides.
- Não tenho troco. - Disse o homem, de olhar triste.
- É tudo para si. Eu não preciso e tenho a certeza que o senhor precisa mais do que eu.
O homem, incrédulo, sorriu e agradeceu.
- Que Deus a abençoe, menina.
A mãe, que assistira a tudo, de longe, sentiu uma picada de vergonha. Como pôde ela dizer à filha que aquele homem indefeso era uma atentado às sociedade? Sentiu-se corar quando a filha regressou para junto dela e a olhou como se lhe tivesse a trespassar a alma.
- Vês, mãe? Não custa dar o pouco que temos quando se trata de dar com amor. Viste o sorriso dele? Nunca mais se vai esquecer deste momento: não pelo dinheiro, como podes pensar, mas porque alguém lhe deu alguma coisa, sem esperar nada em troca.
A mãe engoliu em seco e apenas conseguiu balbuciar:
- Acho que também eu tenho muita coisa para aprender acerca das pessoas e do mundo...

Não vale a pena fechar os olhos à miséria do mundo. Ela vai continuar a existir, de qualquer maneira. Mas podemos sempre fazer alguma coisa para melhorar os dias miseráveis dessas pessoas, que se submetem ao que nenhum de nós gostaria de se submeter.
Dar é amor.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Informações sobre as Imagens

A maior parte das imagens colocadas aqui no blog foram retiradas da internet, desconhecendo-lhes a autoria. Por esse motivo, as imagens não se encontram identificadas. Se, por ventura, alguém reconhecer as imagens como suas ou conhecer o autor das mesmas, é favor de me avisar - por email - para que eu possa dar os devidos créditos.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Informações sobre os Textos

Todos os textos que se encontram neste blog são da minha autoria. Peço, portanto, que não copiem o meu trabalho. Só o podem fazer mediante a minha autorização, com o devido crédito (identificação) e sem fins comerciais, caso contrário trata-se de um crime - Plágio - punido por lei e com consequências graves.
Não podem alterar os textos para dissimular a autoria.

Não custa ser-se original e quando não se é, que se peça autorização de uso a quem o tenta ser.

Obrigada pela compreensão.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Aniversário do Paraíso


[Já tive tempo para digerir a perda física do meu avô e já coloquei a cabeça de fora para voltar a apanhar o sol e respirar oxigénio. Regresso, assim, convicta de que esta foi mais uma etapa difícil de superar. Mas já que não a podemos evitar, ao menos que a vivamos com alguma consciência fria de que as coisas são mesmo assim. Não é a primeira vez que passo por esta situação, mas é a primeira vez que me sinto forte relativamente à morte.]

Passo agora para uma data importante: a de hoje.
Faz exactamente um ano que criei o Paraíso no Inferno com o intuito de partilhar parte de mim e conhecer partes de outros. Ao longo destes meses, criei elos que não pensei vir a criar nestas condições...
Fico feliz sempre que chego ao meu blog e vejo os comentários das pessoas que me estimam e têm sempre algo a partilhar. Por tudo isso, não poderia ficar indiferente.

É o Paraíso que faz anos, mas são vocês que estão de parabéns.
Que este continue a ser um ponto de encontro de pessoas, ideias e sentimentos. Porque, afinal, em qualquer inferno, há um pequeno paraíso à espreita - uma réstea de felicidade que devemos procurar e preservar. Às vezes encontra-se nos gestos, outras vezes nas simples palavras.

Muito obrigada pelo carinho de sempre, nos cem textos aqui escritos!
Vamos apagar as velas?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Mãos velhas


Mãos velhas. Enrugadas. Porém, sábias e ágeis.
Aprenderam a Arte de dar forma ao disforme. Modelaram. Criaram.

Recordo o desembaraço delas. A leveza que contradizia com o seu aspecto.
Eram macias aquelas mãos. Mas partiram.

Senti a vida fugir-lhe por entre os dedos sem que nada pudesse fazer para impedi-lo.
Ao meu lado um semblante espectral, sorrindo-me cumplicemente. Era ela. A Morte.
Levou-me as mãos. A vida. O avô.

E fiquei eu, para limpar as lágrimas. Tristeza e desespero de mãos dadas. Juntas a olhar para um futuro próximo doloroso e já conhecido.

O Paraíso está de luto.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

O Génio da Lâmpada

- Mestre, obrigada por me teres libertado da lâmpada! Concedo-te três desejos, como prova da minha gratidão.
Luciano estava petrificado a olhar para o espectro de um génio da lâmpada, que sempre julgara fruto das mentes mais férteis.
- Mestre... Estou às tuas ordens. - Disse o génio da lâmpada, não percebendo a hesitação do homem que tinha à sua frente.
- Eu não quero nada. - Respondeu Luciano, pouco convencido da veracidade do momento.
- Mas tens de pedir qualquer coisa. Só estou livre depois de satisfazer os teus desejos, Mestre.
- Em primeiro lugar não me chamas Mestre!
- Desejo concedido!
- Como assim, desejo concedido?! Eu ainda não pedi nada!!!
- Pediste que não te chamasse Mestre. Já só tens dois desejos para satisfazer. Pensa bem antes de te precipitares.
Luciano estava furioso. Não medira as palavras e perdera a oportunidade de satisfazer um desejo grandioso. Ia ter mais cuidado agora. Pensou nas coisas que sempre quisera ter.
- Quero um casa maravilhosa perto da praia, com piscina e tudo do bom e do melhor.
* Puf *
- Desejo concedido. Aqui tens a chave da tua espectacular moradia ao lado da praia de Albar.
Luciano sorriu. Só faltava agora arranjar uma mulher de sonho!
- Para meu último desejo quero uma Mulher de sonho. LInda, cabelos compridos, corpo escultural e meiga.
* Puf *
Apareceu uma Mulher lindíssima ao lado de Luciano que ficou embasbacado com tamanha beleza. Nem em sonhos ele concebera uma mulher assim...
- Foi uma honra satisfazer os seus pedidos. Agora parto em liberdade.
Luciano começou a falar com a mulher que tinha ao lado e ao fim de três horas, estavam na casa espectacular que o Génio tinha oferecido.
Mas as coisas começaram a azedar ao fim de alguns dias. A mulher não o amava e quando descobriu que Luciano não tinha um tostão para ela gastar, começou a passar os dias fora de casa.
Luciano, para satisfazer alguns dos caprichos da sua mulher, vendeu alguns artefactos da casa de luxo. Mas as coisas desapareciam rapidamente e o dinheiro também.
Não tardou até Luciano ter de se desfazer da casa.
Certo dia, sozinho na praia de Albar, olhou para o mar e sentiu uma raiva enorme do génio que lhe dera a oportunidade de satisfazer três desejos. Fora o dia mais infeliz da sua vida.
Mas o erro não era do génio da lâmpada. Era do Lucicao que não soubera escolher as coisas certas. Preferiu o luxo à estabilidade finaneira. Preferiu a Beleza ao Amor. E estava tão compenetrado na formulação dos seus desejos que acabou por perder a oportunidade de escolher algo realmente bom.

Tititititi-tititititi...
O despertador tocou e interrompeu o sonho de Luciano.
Olhou para o lado. Sete horas da manhã.
«Felizmente foi só um sonho...»

Quantos de nós não nos precipitamos quando nos é depositada confiança ou algum poder?
Há que saber escolher e agir com ponderação. Não é todos os dias que aparece um Génio da Lâmpada para nos facilitar a vida... Nem que seja em sonhos.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Reticências


Quando a vida me parece irritantemente incerta e enevoada, sinto vontade de implodir.A realidade parece incompatível com a esperança e quando mais me agarro a ela, mais medo tenho de que seja tudo em vão.

Hoje estou a precisar de uma mãozinha para levantar a moral. A minha e a dos que me rodeiam.
Sinto-me em reticências...

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Despedida



Parti. Sem uma palavra.
Fechei a porta para nunca mais voltar.
Deixei para trás o passado, a angústia da indecisão, as noites em branco, os choros corrosivos, as alucinações.
Deixei uma vela acesa, em cima da mesa, como sinal de que, apesar do desespero que outras pessoas vão sentir contigo por perto, haverá sempre um ponto de luz para manter viva a esperança que dias melhores virão.
Tornei-me numa pessoa tão diferente que nem eu própria me reconheço. É tempo de me reencontrar. Longe de ti.
Forço-me a esquecer os momentos de dor e terror que me fizeste sentir, mas brindo à minha vitória.
Finalmente, liberto-me.
Uma vida nova espera-me lá fora. Uma segunda oportunidade que não quero desperdiçar.
Tenho um mundo para conhecer e não vais ser tu a impedir-me. A morte chegará até mim naturalmente, não serás tu a antecipá-la.

Na cidade deserta deixo o meu lugar à disposição. A cadeira está vazia, até que consigas encontrar a próxima vítima. Espero mesmo é que nunca a encontres.

Deixo-te, sem remorsos.
Fechei a porta. Para nunca mais voltar.

As drogas nunca foram um refúgio. Tomara que todos conseguissem perceber isso.

P.S. Este texto é meramente reflexivo. O perigo é real. E não acontece so aos outros.

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Maestro







Entro na grande sala do Teatro Municipal e sinto um arrepio percorrer-me a espinha. A sala está quase cheia, o espectáculo está prestes a começar.
Uma cortina a tapar os intervenientes e uns zunzuns de ansiedade a percorrer a sala. Sento-me confortavelmente no lugar pelo qual paguei. Uma exorbitância que demorei a poupar.
Apagam-se as luzes. Ouve-se a expectativa silenciosa dos presentes.
A cortina levanta-se. O público bate palmas, timidamente. O maestro dá sinal e a sinfonia começa.
O meu coração estremece. A música entra-me no ouvido. Primeiro soa-me estranha, depois harmonizo-me com ela. Tem ritmo.
O piano e os violinos estão no auge da sua actuação.O público entreolha-se surpreendido. Nada de sinfonias conhecidas ou clássicas. Um som, completamente novo e irreverente.
Os pés começam a bater no chão, o corpo abana-se sem ritmo lógico. Os espíritos parecem entrar em transe. As mãos gesticulam e ao fim de dois minutos, todos sorriem, agradavelmente animados.
Os meus olhos ficam presos à harmonia dos violinistas, aos gestos sincronizados.
O maestro gesticula e eu gesticulo com ele.
E depois o término. A cortina fecha-se. O público bate palmas. A cortina volta a abrir-se e o maestro cumprimenta o público, extasiado.
O espectáculo termina.

O Teatro fica vazio.
Saio para a rua fria e deserta e vou pelo caminho a ouvir a música estranha que se cravara na minha memória.
Deito-me com ela nos ouvidos e fecho os olhos.

Sinto-me maestra. Sempre a tentar dar uma afinação à minha vida. Sempre a coordenar os momentos graves e agudos da minha existência. Sempre a procurar um equilíbrio.
E a música? Essa é o elemento decorativo.

Os violinos baixam o tom, até eu adormecer, por fim.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Vertigens

Gostei particularmente dos comentários ao post anterior, sobre a inutilidade. Foram abordadas várias vertentes que, na minha opinião, não têm nada a ver com a inutilidade no sentido em que a expus ou pretendi expor, mas que são o reflexo das nossas próprias vidas e experiências.
De qualquer forma, para que fiquem esclarecidos, não alio inutilidade a depressões nem a pausas de relaxamento necessárias. Tão-pouco a concilio com problemas pessoais. Justificar a inutilidade seria pura perda de tempo, até porque cada um de nós tem uma visão diferente. Eu acho é que as pessoas estão cada vez mais perdidas nas suas vocações e nas suas decisões. Mas compete a cada um fazer o que considera melhor para si.
Quanto à correctora automática que apareceu por aqui com as suas correcções, agradeço a dica, mas dispenso comentários deste género. Até porque estou convencida que a maioria das pessoas que me visitam (cerca de 80 por dia) não estão minimamente interessadas nas coordenações frásicas e muito menos nas (in)correcções gramaticais. Qualquer comentário deste teor, pode ser discutido por email. O objectivo dos textos é a exposição de ideias, de perspectivas diferentes, de discussão, quem sabe. Mas antes disso, é o meu blog.
Quando eu começar a editar livros, presto mais atenção a esses pormenores que, mesmo assim, não impedem as pessoas de copiar os meus textos. Vai-se lá saber se não és uma delas...

O Paraíso, antes de qualquer outra coisa, é um blog pessoal, portanto, dou-me ao luxo de dizer o que quero e quando quero. De vez em quando lá surgem estes pequenos desvios.
E agora que disse o que quis, volto à descontracção habitual deste Paraíso. E porque muito já foi dito, fica apenas uma imagem.
Ela sim, poderá sugerir-vos muito mais.

Que tal um lanche nas alturas para descontrair? Alinham?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Inutilidade



Há dias em que não nos apetece fazer rigorosamente nada. Até aqui tudo bem. Uma vez por outra é natural que nos sintamos cansados do quotidiano e que precisemos de um dia de sorna. O problema existe quando estes dias sucedem-se, quando a apatia instala-se, quando a preguiça fala mais alto. Não consigo perceber como é que as pessoas se rendem tão facilmente. Talvez porque a vida que levam não lhes apraz.
- Qual é o teu maior medo?
- A solidão. - Respondeu-me.
- O meu é a inutilidade.
- É... também me sinto inútil. Mas acho que prefiro ser uma inútil a uma pessoa só.
- Eu cá prefiro não ser nem uma coisa nem outra. Sabes que estes medos podem ser contrariados.
- Eu sei. Ao invés de estar aqui enfiada em casa, posso muito bem sair.
- Precisamente. E ao invés de nos sentirmos inúteis, podemos fazer um milhão de coisas para nos ocupar o tempo e a cabeça.
- Eu sei.
- E então? Nenhuma iniciativa?
- Prefiro estar a assim, sem fazer nada, aproveitar os dias de folga. Faz-me ter a sensação de que o tempo não passa, de que a minha vida está suspensa até eu tomar uma decisão.
- Pois é, minha amiga. Mas o tempo não pára e quando deres por ela, já pode ser
demasiado tarde.
Levantei-me na tentativa de a fazer acordar para a vida. Convidei-a para sair e para aproveitarmos o pouco tempo que estamos juntas. A resposta foi:
- Oh, não em leves a mal. Eu prefiro estar aqui enrolada à volta do cobertor a ver televisão. Não me apetece mesmo sair com este frio.
Assoei-me pela trigésima vez na última hora. A gripe estava a dar cabo de mim.
Despedi-me dela e saí, directa para casa. Quando cheguei, um monte de trabalho esperava por mim. Seria mais fácil se eu me deitasse e ficasse o resto da tarde sem fazer nada. Com o corpo doente, até saberia bem. Mas as coisas fáceis nem sempre são as mais aprazíveis e, portanto, meti as mãos à obra. Ao final da tarde, a febre turvava-me os olhos e o meu corpo clamava descanso. Uma refeição ligeira, um chá quente com mel, a medicação adequada e o merecido sono dos justos, certa que o dia não foi, de todo, inútil.

Com tanta coisa nova para experimentar, num espaço tão curto de tempo e de vida, não percebo como as pessoas se deixam invadir pelo comodismo.
A inutilidade assusta-me. A minha e a de quem me rodeia.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Brindemos!

Façamos um brinde ao novo ano que nos traz a esperança de ser um ano melhor, cheio de realizações pessoais, cheio de saúde e amor, cheio de um pouco de tudo.

Façamos um brinde ao que somos. Porque o que somos hoje, implicou passar por inúmeras provas, adversidades, dúvidas e momentos de tristeza profunda e êxtase extremo. Tudo o que nos aconteceu de bom e de mau tornou-nos na pessoa que somos hoje.

Façamos um brinde ao que temos. Porque lutámos por ter e porque tivemos a sorte de nunca passar pela miséria que ainda hoje povoa o mundo (vai-se lá saber porquê).

Façamos um brinde à nossa vida. Nem sempre boa, nem sempre sorridente, mas sempre com a oportunidade de a melhorarmos, se quisermos e se formos capazes.

Façamos um brinde ao ano que acabou porque foi mais um ano importante da nossa vida e porque não nos podemos dar ao luxo de ter um ano sem sentido. À medida que se envelhece, apercebemo-nos que todo o tempo é precioso e que devemos aproveitá-lo da melhor maneira.

Aproveitemos este início de ano para virar a cara para o Sol e deixar as sombras lá atrás!

Votos de um ano feliz para todos vocês!
É tempo de recomeçarmos a nossa rotina.

P.S. Obrigada por todas as mensagens, comentários e emails que me enviaram. Vocês coloriram ainda mais esta quadra festiva. Beijos *