segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Reticências


Quando a vida me parece irritantemente incerta e enevoada, sinto vontade de implodir.A realidade parece incompatível com a esperança e quando mais me agarro a ela, mais medo tenho de que seja tudo em vão.

Hoje estou a precisar de uma mãozinha para levantar a moral. A minha e a dos que me rodeiam.
Sinto-me em reticências...

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Despedida



Parti. Sem uma palavra.
Fechei a porta para nunca mais voltar.
Deixei para trás o passado, a angústia da indecisão, as noites em branco, os choros corrosivos, as alucinações.
Deixei uma vela acesa, em cima da mesa, como sinal de que, apesar do desespero que outras pessoas vão sentir contigo por perto, haverá sempre um ponto de luz para manter viva a esperança que dias melhores virão.
Tornei-me numa pessoa tão diferente que nem eu própria me reconheço. É tempo de me reencontrar. Longe de ti.
Forço-me a esquecer os momentos de dor e terror que me fizeste sentir, mas brindo à minha vitória.
Finalmente, liberto-me.
Uma vida nova espera-me lá fora. Uma segunda oportunidade que não quero desperdiçar.
Tenho um mundo para conhecer e não vais ser tu a impedir-me. A morte chegará até mim naturalmente, não serás tu a antecipá-la.

Na cidade deserta deixo o meu lugar à disposição. A cadeira está vazia, até que consigas encontrar a próxima vítima. Espero mesmo é que nunca a encontres.

Deixo-te, sem remorsos.
Fechei a porta. Para nunca mais voltar.

As drogas nunca foram um refúgio. Tomara que todos conseguissem perceber isso.

P.S. Este texto é meramente reflexivo. O perigo é real. E não acontece so aos outros.

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Maestro







Entro na grande sala do Teatro Municipal e sinto um arrepio percorrer-me a espinha. A sala está quase cheia, o espectáculo está prestes a começar.
Uma cortina a tapar os intervenientes e uns zunzuns de ansiedade a percorrer a sala. Sento-me confortavelmente no lugar pelo qual paguei. Uma exorbitância que demorei a poupar.
Apagam-se as luzes. Ouve-se a expectativa silenciosa dos presentes.
A cortina levanta-se. O público bate palmas, timidamente. O maestro dá sinal e a sinfonia começa.
O meu coração estremece. A música entra-me no ouvido. Primeiro soa-me estranha, depois harmonizo-me com ela. Tem ritmo.
O piano e os violinos estão no auge da sua actuação.O público entreolha-se surpreendido. Nada de sinfonias conhecidas ou clássicas. Um som, completamente novo e irreverente.
Os pés começam a bater no chão, o corpo abana-se sem ritmo lógico. Os espíritos parecem entrar em transe. As mãos gesticulam e ao fim de dois minutos, todos sorriem, agradavelmente animados.
Os meus olhos ficam presos à harmonia dos violinistas, aos gestos sincronizados.
O maestro gesticula e eu gesticulo com ele.
E depois o término. A cortina fecha-se. O público bate palmas. A cortina volta a abrir-se e o maestro cumprimenta o público, extasiado.
O espectáculo termina.

O Teatro fica vazio.
Saio para a rua fria e deserta e vou pelo caminho a ouvir a música estranha que se cravara na minha memória.
Deito-me com ela nos ouvidos e fecho os olhos.

Sinto-me maestra. Sempre a tentar dar uma afinação à minha vida. Sempre a coordenar os momentos graves e agudos da minha existência. Sempre a procurar um equilíbrio.
E a música? Essa é o elemento decorativo.

Os violinos baixam o tom, até eu adormecer, por fim.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Vertigens

Gostei particularmente dos comentários ao post anterior, sobre a inutilidade. Foram abordadas várias vertentes que, na minha opinião, não têm nada a ver com a inutilidade no sentido em que a expus ou pretendi expor, mas que são o reflexo das nossas próprias vidas e experiências.
De qualquer forma, para que fiquem esclarecidos, não alio inutilidade a depressões nem a pausas de relaxamento necessárias. Tão-pouco a concilio com problemas pessoais. Justificar a inutilidade seria pura perda de tempo, até porque cada um de nós tem uma visão diferente. Eu acho é que as pessoas estão cada vez mais perdidas nas suas vocações e nas suas decisões. Mas compete a cada um fazer o que considera melhor para si.
Quanto à correctora automática que apareceu por aqui com as suas correcções, agradeço a dica, mas dispenso comentários deste género. Até porque estou convencida que a maioria das pessoas que me visitam (cerca de 80 por dia) não estão minimamente interessadas nas coordenações frásicas e muito menos nas (in)correcções gramaticais. Qualquer comentário deste teor, pode ser discutido por email. O objectivo dos textos é a exposição de ideias, de perspectivas diferentes, de discussão, quem sabe. Mas antes disso, é o meu blog.
Quando eu começar a editar livros, presto mais atenção a esses pormenores que, mesmo assim, não impedem as pessoas de copiar os meus textos. Vai-se lá saber se não és uma delas...

O Paraíso, antes de qualquer outra coisa, é um blog pessoal, portanto, dou-me ao luxo de dizer o que quero e quando quero. De vez em quando lá surgem estes pequenos desvios.
E agora que disse o que quis, volto à descontracção habitual deste Paraíso. E porque muito já foi dito, fica apenas uma imagem.
Ela sim, poderá sugerir-vos muito mais.

Que tal um lanche nas alturas para descontrair? Alinham?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Inutilidade



Há dias em que não nos apetece fazer rigorosamente nada. Até aqui tudo bem. Uma vez por outra é natural que nos sintamos cansados do quotidiano e que precisemos de um dia de sorna. O problema existe quando estes dias sucedem-se, quando a apatia instala-se, quando a preguiça fala mais alto. Não consigo perceber como é que as pessoas se rendem tão facilmente. Talvez porque a vida que levam não lhes apraz.
- Qual é o teu maior medo?
- A solidão. - Respondeu-me.
- O meu é a inutilidade.
- É... também me sinto inútil. Mas acho que prefiro ser uma inútil a uma pessoa só.
- Eu cá prefiro não ser nem uma coisa nem outra. Sabes que estes medos podem ser contrariados.
- Eu sei. Ao invés de estar aqui enfiada em casa, posso muito bem sair.
- Precisamente. E ao invés de nos sentirmos inúteis, podemos fazer um milhão de coisas para nos ocupar o tempo e a cabeça.
- Eu sei.
- E então? Nenhuma iniciativa?
- Prefiro estar a assim, sem fazer nada, aproveitar os dias de folga. Faz-me ter a sensação de que o tempo não passa, de que a minha vida está suspensa até eu tomar uma decisão.
- Pois é, minha amiga. Mas o tempo não pára e quando deres por ela, já pode ser
demasiado tarde.
Levantei-me na tentativa de a fazer acordar para a vida. Convidei-a para sair e para aproveitarmos o pouco tempo que estamos juntas. A resposta foi:
- Oh, não em leves a mal. Eu prefiro estar aqui enrolada à volta do cobertor a ver televisão. Não me apetece mesmo sair com este frio.
Assoei-me pela trigésima vez na última hora. A gripe estava a dar cabo de mim.
Despedi-me dela e saí, directa para casa. Quando cheguei, um monte de trabalho esperava por mim. Seria mais fácil se eu me deitasse e ficasse o resto da tarde sem fazer nada. Com o corpo doente, até saberia bem. Mas as coisas fáceis nem sempre são as mais aprazíveis e, portanto, meti as mãos à obra. Ao final da tarde, a febre turvava-me os olhos e o meu corpo clamava descanso. Uma refeição ligeira, um chá quente com mel, a medicação adequada e o merecido sono dos justos, certa que o dia não foi, de todo, inútil.

Com tanta coisa nova para experimentar, num espaço tão curto de tempo e de vida, não percebo como as pessoas se deixam invadir pelo comodismo.
A inutilidade assusta-me. A minha e a de quem me rodeia.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Brindemos!

Façamos um brinde ao novo ano que nos traz a esperança de ser um ano melhor, cheio de realizações pessoais, cheio de saúde e amor, cheio de um pouco de tudo.

Façamos um brinde ao que somos. Porque o que somos hoje, implicou passar por inúmeras provas, adversidades, dúvidas e momentos de tristeza profunda e êxtase extremo. Tudo o que nos aconteceu de bom e de mau tornou-nos na pessoa que somos hoje.

Façamos um brinde ao que temos. Porque lutámos por ter e porque tivemos a sorte de nunca passar pela miséria que ainda hoje povoa o mundo (vai-se lá saber porquê).

Façamos um brinde à nossa vida. Nem sempre boa, nem sempre sorridente, mas sempre com a oportunidade de a melhorarmos, se quisermos e se formos capazes.

Façamos um brinde ao ano que acabou porque foi mais um ano importante da nossa vida e porque não nos podemos dar ao luxo de ter um ano sem sentido. À medida que se envelhece, apercebemo-nos que todo o tempo é precioso e que devemos aproveitá-lo da melhor maneira.

Aproveitemos este início de ano para virar a cara para o Sol e deixar as sombras lá atrás!

Votos de um ano feliz para todos vocês!
É tempo de recomeçarmos a nossa rotina.

P.S. Obrigada por todas as mensagens, comentários e emails que me enviaram. Vocês coloriram ainda mais esta quadra festiva. Beijos *