segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Inutilidade



Há dias em que não nos apetece fazer rigorosamente nada. Até aqui tudo bem. Uma vez por outra é natural que nos sintamos cansados do quotidiano e que precisemos de um dia de sorna. O problema existe quando estes dias sucedem-se, quando a apatia instala-se, quando a preguiça fala mais alto. Não consigo perceber como é que as pessoas se rendem tão facilmente. Talvez porque a vida que levam não lhes apraz.
- Qual é o teu maior medo?
- A solidão. - Respondeu-me.
- O meu é a inutilidade.
- É... também me sinto inútil. Mas acho que prefiro ser uma inútil a uma pessoa só.
- Eu cá prefiro não ser nem uma coisa nem outra. Sabes que estes medos podem ser contrariados.
- Eu sei. Ao invés de estar aqui enfiada em casa, posso muito bem sair.
- Precisamente. E ao invés de nos sentirmos inúteis, podemos fazer um milhão de coisas para nos ocupar o tempo e a cabeça.
- Eu sei.
- E então? Nenhuma iniciativa?
- Prefiro estar a assim, sem fazer nada, aproveitar os dias de folga. Faz-me ter a sensação de que o tempo não passa, de que a minha vida está suspensa até eu tomar uma decisão.
- Pois é, minha amiga. Mas o tempo não pára e quando deres por ela, já pode ser
demasiado tarde.
Levantei-me na tentativa de a fazer acordar para a vida. Convidei-a para sair e para aproveitarmos o pouco tempo que estamos juntas. A resposta foi:
- Oh, não em leves a mal. Eu prefiro estar aqui enrolada à volta do cobertor a ver televisão. Não me apetece mesmo sair com este frio.
Assoei-me pela trigésima vez na última hora. A gripe estava a dar cabo de mim.
Despedi-me dela e saí, directa para casa. Quando cheguei, um monte de trabalho esperava por mim. Seria mais fácil se eu me deitasse e ficasse o resto da tarde sem fazer nada. Com o corpo doente, até saberia bem. Mas as coisas fáceis nem sempre são as mais aprazíveis e, portanto, meti as mãos à obra. Ao final da tarde, a febre turvava-me os olhos e o meu corpo clamava descanso. Uma refeição ligeira, um chá quente com mel, a medicação adequada e o merecido sono dos justos, certa que o dia não foi, de todo, inútil.

Com tanta coisa nova para experimentar, num espaço tão curto de tempo e de vida, não percebo como as pessoas se deixam invadir pelo comodismo.
A inutilidade assusta-me. A minha e a de quem me rodeia.

7 comentários :

Mia disse...

Algo sobre o qual vale a pena reflectir...!

Mesmo quando nos apetece desistir e a preguiça e o medo nos invadem, há sempre tanto por que lutar...Por isso esperança e coragem para as dificuldades mas nunca o conformismo. Julgo que devemos procurar ser mais do que simples realizações em potência. Temos de lutar por nos tornarmos actos e não intenções pendentes!

Beijinho, Mia***

SaltaPocinhas disse...

Ai que me vais puxar as orelhas, mas às vezes sabe tãããããõ bem ser inútil! Mas como em tudo na vida, não convém exagerar!!

Gra disse...

Adorei!! Estava precisando ler isto...e olha que não é a primeira vez do dia que leio algo que fale de toda essa preguiça...
Obrigada, tenha um maravilhoso ano, bjo.

Nuno Q. Martins disse...

Sem me querer alongar muito, acho que o ser humano é, essencialmente, movido por impulsos. E acho que não devemos contrariar essa tendência. Devemos, isso sim, raciona-la. Aproveitar os implusos ao máximo, agir, executar, viver intensamente, cumprir objectivos e, depois, parar! Sim, parar para saborear a vitória ou a derrota. Para reflectir... para começar a planear o impulso seguinte... sem comprometer os outros que se seguirão.

Um beijo.

Cakau disse...

Caro Nuno,

COncordo plenamente com o que tu dizes. Só acho que essas paragens não são inúteis, são necessárias ao nosso equilíbrio.
A inutilidade a que me refiro é à acomodação a um estado de espírito apático que não permite fazer nada, além de estar em casa e de se lamentar.
Seguir impulsos é precisamente o oposto da apatia e creio, da consequente inutilidade.

Beijinhos ***

Luz Dourada disse...

A "inutilidade" de um ser humano é o conceito mais desumano que existe. A palavra assusta e muito!

Beijinhos para ti que não és nada inútil, nem com gripe, e escreves muito bem!

Dad disse...

Bom fim de semana apesar deste frio e chuva...
Tomara o Verão...
Beijinhos,