terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Maestro







Entro na grande sala do Teatro Municipal e sinto um arrepio percorrer-me a espinha. A sala está quase cheia, o espectáculo está prestes a começar.
Uma cortina a tapar os intervenientes e uns zunzuns de ansiedade a percorrer a sala. Sento-me confortavelmente no lugar pelo qual paguei. Uma exorbitância que demorei a poupar.
Apagam-se as luzes. Ouve-se a expectativa silenciosa dos presentes.
A cortina levanta-se. O público bate palmas, timidamente. O maestro dá sinal e a sinfonia começa.
O meu coração estremece. A música entra-me no ouvido. Primeiro soa-me estranha, depois harmonizo-me com ela. Tem ritmo.
O piano e os violinos estão no auge da sua actuação.O público entreolha-se surpreendido. Nada de sinfonias conhecidas ou clássicas. Um som, completamente novo e irreverente.
Os pés começam a bater no chão, o corpo abana-se sem ritmo lógico. Os espíritos parecem entrar em transe. As mãos gesticulam e ao fim de dois minutos, todos sorriem, agradavelmente animados.
Os meus olhos ficam presos à harmonia dos violinistas, aos gestos sincronizados.
O maestro gesticula e eu gesticulo com ele.
E depois o término. A cortina fecha-se. O público bate palmas. A cortina volta a abrir-se e o maestro cumprimenta o público, extasiado.
O espectáculo termina.

O Teatro fica vazio.
Saio para a rua fria e deserta e vou pelo caminho a ouvir a música estranha que se cravara na minha memória.
Deito-me com ela nos ouvidos e fecho os olhos.

Sinto-me maestra. Sempre a tentar dar uma afinação à minha vida. Sempre a coordenar os momentos graves e agudos da minha existência. Sempre a procurar um equilíbrio.
E a música? Essa é o elemento decorativo.

Os violinos baixam o tom, até eu adormecer, por fim.

8 comentários :

£§TR£L|NH@ disse...

Nem imaginas como o mundo da produçao do espectaculo me fascina... nao o que esta em cima do palco, mas tudo o que envolve e esta por detras do espectaculo em si...
BJINHU bOA SEMANA ***

Su disse...

... Os teus textos levam a minha alma a ouvir coisas que nunca ouvira e a ver aquilo que nunca vira. Até eu me sinto maestra, agora.

Adorei a música combinada com o texto!

=D * muáh

Teresinha White Snow disse...

que lindo :D:D:D
o quanto eu gostava de participar em qualquer concerto desses... apenas fui a um concerto era ainda mt nova.... pode ser que um dia ainda va...
boa semaninha querida cakau... e espero que ja estejas melhor da tua gripe :D
bjokas grandeS******************

Alvaro Gonçalves disse...

Oi amiga, meu anjo,

Nem imaginas como este teu teto me é familiar, é que a música para mim, é o alimento da minha alma, não consigo conceber um dia sem música, desde que acordo até adormecer, seja em casa, no carro, no trabalho, ou onde quer que esteja tenho que me alimentar, pois assim me habituei desde criança com minha mãe.
Quero desejar-te um belissimo fim de semana e aproveitar para te desejar uma maravilhosa semana uma vez que infelizmente não poderei cá vir amanhã (Domingo) para o fazer, pois trabalho logo cedinho.
Bjokas mil e xi - corações

Mikas disse...

Gostei muito deste texto. Às vezes a música dáum sentido a tudo.

Peço desulpa pelas poucas visitas ao teu paraiso, o tempo é pouco.

Beijinho grande!

Dad disse...

É verdade, o Maestro, naquele momento, é para a Orquestra ou para o Coro, o nosso "Deus" pois é ele que com o seu comando, consegue libertar as mais belas melodias, pelas modelações das harmonizações...e eu que o diga que canto num coro. O Coro ou a orquestra que é a nossa vida, da qual somos só uma voz ou um instrumento, pode vibrar mais correctamente que olharmos, permanentemente para os gestos do nosso Maestro Máximo - Deus!

Periférico disse...

Querida Cakau,

És uma maestrina da palavra!;-)

Boa semana!

O Periférico tem um novo look, espero que gostes!

Beijos

zé das loas disse...

Um texto mto bem escrito, com um final "majestoso". Beijos