terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Saber Dar


- Mãe, porque não deste esmola àquele senhor?
- Porque não.
- Isso não é resposta? Ele não merece?
- Não é de confiança, Rita.
- Porquê?
- Pode ser perigoso.
- Mãe! Como é que uma pessoa maltrapilha e com olhar triste pode ser perigosa?
- Ora, tu não conheces o mundo. Não conheces as pessoas. Não sabes do que elas são capazes!
- Começo a saber. Hoje aprendi que existem, pelo menos, dois tipos de pessoas: as necessitadas e as esbanjadoras. As primeiras têm de lutar contra a vergonha de viver na rua e de lutarem por aquilo que necessitam; as segundas gastam todo o dinheiro em coisas fúteis e nunca sabem que o essencial é o que o nosso coração pode dar. E ele pode dar tudo, desde que queiramos.
A mãe parou de caminhar e olhou para a filha.
- Vê lá como falas da tua mãe!
A adolescente desafiou-a com o olhar, pegou na sua mesada e foi dar ao velho senhor que vendia cabides.
- Não tenho troco. - Disse o homem, de olhar triste.
- É tudo para si. Eu não preciso e tenho a certeza que o senhor precisa mais do que eu.
O homem, incrédulo, sorriu e agradeceu.
- Que Deus a abençoe, menina.
A mãe, que assistira a tudo, de longe, sentiu uma picada de vergonha. Como pôde ela dizer à filha que aquele homem indefeso era uma atentado às sociedade? Sentiu-se corar quando a filha regressou para junto dela e a olhou como se lhe tivesse a trespassar a alma.
- Vês, mãe? Não custa dar o pouco que temos quando se trata de dar com amor. Viste o sorriso dele? Nunca mais se vai esquecer deste momento: não pelo dinheiro, como podes pensar, mas porque alguém lhe deu alguma coisa, sem esperar nada em troca.
A mãe engoliu em seco e apenas conseguiu balbuciar:
- Acho que também eu tenho muita coisa para aprender acerca das pessoas e do mundo...

Não vale a pena fechar os olhos à miséria do mundo. Ela vai continuar a existir, de qualquer maneira. Mas podemos sempre fazer alguma coisa para melhorar os dias miseráveis dessas pessoas, que se submetem ao que nenhum de nós gostaria de se submeter.
Dar é amor.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Informações sobre as Imagens

A maior parte das imagens colocadas aqui no blog foram retiradas da internet, desconhecendo-lhes a autoria. Por esse motivo, as imagens não se encontram identificadas. Se, por ventura, alguém reconhecer as imagens como suas ou conhecer o autor das mesmas, é favor de me avisar - por email - para que eu possa dar os devidos créditos.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Informações sobre os Textos

Todos os textos que se encontram neste blog são da minha autoria. Peço, portanto, que não copiem o meu trabalho. Só o podem fazer mediante a minha autorização, com o devido crédito (identificação) e sem fins comerciais, caso contrário trata-se de um crime - Plágio - punido por lei e com consequências graves.
Não podem alterar os textos para dissimular a autoria.

Não custa ser-se original e quando não se é, que se peça autorização de uso a quem o tenta ser.

Obrigada pela compreensão.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Aniversário do Paraíso


[Já tive tempo para digerir a perda física do meu avô e já coloquei a cabeça de fora para voltar a apanhar o sol e respirar oxigénio. Regresso, assim, convicta de que esta foi mais uma etapa difícil de superar. Mas já que não a podemos evitar, ao menos que a vivamos com alguma consciência fria de que as coisas são mesmo assim. Não é a primeira vez que passo por esta situação, mas é a primeira vez que me sinto forte relativamente à morte.]

Passo agora para uma data importante: a de hoje.
Faz exactamente um ano que criei o Paraíso no Inferno com o intuito de partilhar parte de mim e conhecer partes de outros. Ao longo destes meses, criei elos que não pensei vir a criar nestas condições...
Fico feliz sempre que chego ao meu blog e vejo os comentários das pessoas que me estimam e têm sempre algo a partilhar. Por tudo isso, não poderia ficar indiferente.

É o Paraíso que faz anos, mas são vocês que estão de parabéns.
Que este continue a ser um ponto de encontro de pessoas, ideias e sentimentos. Porque, afinal, em qualquer inferno, há um pequeno paraíso à espreita - uma réstea de felicidade que devemos procurar e preservar. Às vezes encontra-se nos gestos, outras vezes nas simples palavras.

Muito obrigada pelo carinho de sempre, nos cem textos aqui escritos!
Vamos apagar as velas?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Mãos velhas


Mãos velhas. Enrugadas. Porém, sábias e ágeis.
Aprenderam a Arte de dar forma ao disforme. Modelaram. Criaram.

Recordo o desembaraço delas. A leveza que contradizia com o seu aspecto.
Eram macias aquelas mãos. Mas partiram.

Senti a vida fugir-lhe por entre os dedos sem que nada pudesse fazer para impedi-lo.
Ao meu lado um semblante espectral, sorrindo-me cumplicemente. Era ela. A Morte.
Levou-me as mãos. A vida. O avô.

E fiquei eu, para limpar as lágrimas. Tristeza e desespero de mãos dadas. Juntas a olhar para um futuro próximo doloroso e já conhecido.

O Paraíso está de luto.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

O Génio da Lâmpada

- Mestre, obrigada por me teres libertado da lâmpada! Concedo-te três desejos, como prova da minha gratidão.
Luciano estava petrificado a olhar para o espectro de um génio da lâmpada, que sempre julgara fruto das mentes mais férteis.
- Mestre... Estou às tuas ordens. - Disse o génio da lâmpada, não percebendo a hesitação do homem que tinha à sua frente.
- Eu não quero nada. - Respondeu Luciano, pouco convencido da veracidade do momento.
- Mas tens de pedir qualquer coisa. Só estou livre depois de satisfazer os teus desejos, Mestre.
- Em primeiro lugar não me chamas Mestre!
- Desejo concedido!
- Como assim, desejo concedido?! Eu ainda não pedi nada!!!
- Pediste que não te chamasse Mestre. Já só tens dois desejos para satisfazer. Pensa bem antes de te precipitares.
Luciano estava furioso. Não medira as palavras e perdera a oportunidade de satisfazer um desejo grandioso. Ia ter mais cuidado agora. Pensou nas coisas que sempre quisera ter.
- Quero um casa maravilhosa perto da praia, com piscina e tudo do bom e do melhor.
* Puf *
- Desejo concedido. Aqui tens a chave da tua espectacular moradia ao lado da praia de Albar.
Luciano sorriu. Só faltava agora arranjar uma mulher de sonho!
- Para meu último desejo quero uma Mulher de sonho. LInda, cabelos compridos, corpo escultural e meiga.
* Puf *
Apareceu uma Mulher lindíssima ao lado de Luciano que ficou embasbacado com tamanha beleza. Nem em sonhos ele concebera uma mulher assim...
- Foi uma honra satisfazer os seus pedidos. Agora parto em liberdade.
Luciano começou a falar com a mulher que tinha ao lado e ao fim de três horas, estavam na casa espectacular que o Génio tinha oferecido.
Mas as coisas começaram a azedar ao fim de alguns dias. A mulher não o amava e quando descobriu que Luciano não tinha um tostão para ela gastar, começou a passar os dias fora de casa.
Luciano, para satisfazer alguns dos caprichos da sua mulher, vendeu alguns artefactos da casa de luxo. Mas as coisas desapareciam rapidamente e o dinheiro também.
Não tardou até Luciano ter de se desfazer da casa.
Certo dia, sozinho na praia de Albar, olhou para o mar e sentiu uma raiva enorme do génio que lhe dera a oportunidade de satisfazer três desejos. Fora o dia mais infeliz da sua vida.
Mas o erro não era do génio da lâmpada. Era do Lucicao que não soubera escolher as coisas certas. Preferiu o luxo à estabilidade finaneira. Preferiu a Beleza ao Amor. E estava tão compenetrado na formulação dos seus desejos que acabou por perder a oportunidade de escolher algo realmente bom.

Tititititi-tititititi...
O despertador tocou e interrompeu o sonho de Luciano.
Olhou para o lado. Sete horas da manhã.
«Felizmente foi só um sonho...»

Quantos de nós não nos precipitamos quando nos é depositada confiança ou algum poder?
Há que saber escolher e agir com ponderação. Não é todos os dias que aparece um Génio da Lâmpada para nos facilitar a vida... Nem que seja em sonhos.