terça-feira, 28 de março de 2006

Metáfora



Chovia.
O mundo parecia perder a vida à medida que o breu da noite caía lentamente. Adivinhava-se um final de tarde tristonho. As pessoas corriam para casa. Os carros molhavam os passeios. A cidade ficaria deserta em pouco tempo.
Andei um pouco, até ao parque onde era habitual encontrarmo-nos. Não te esperava (sobretudo depois da discussão que acabou cada um para o seu lado), pelo que foi uma surpresa inesperada prender os meus olhos nos teus, como se de um íman se tratasse.
Sorri-te e tu devolveste-me o sorriso. De repente, tudo se esfumara. Tudo perdia o sentido. A discussão, as palavras proferidas, os sentimentos mesquinhos e tão banais.
Vieste ao meu encontro, com um guarda-chuva na mão. Quando chegaste, não me disseste uma palavra. Apenas me conduziste até ao nosso banco e puseste o teu braço sobre mim.
- Juntos, enfrentaremos a chuva. - Disseste-me.
Pois. Enfrentar a chuva. Que cai em nós e nos lava dos pecados genuinamente humanos. A chuva miudinha e irritante que nos molha e nos aborrece. Uma metáfora perfeita para a nossa vida.
Encostei a minha cabeça no seu ombro e fechei os olhos, respirando o odor - agora agradável - da chuva.

terça-feira, 21 de março de 2006

Primavera

O Sol começava a estender os seus longos braços no horizonte, acariciando as águas do meu mar, brilhantes e convidativas.
Empurrei o meu barquinho e entrei nele.
A viagem começara.
Só tinha de remar dez minutos por rotas que só eu conhecia. Há uma passagem secreta para um mundo encantado que descobri certo dia, por mero acaso, enquanto passeava nas águas do meu mar. Primeiro parecia-me ser apenas uma rocha enorme e polida, mas estava no meio do mar! Não há rochas no meio do mar. A curiosidade fez-me aproximar. Estava espantada! A rocha era brilhante e parecia flutuar. Como é que nunca tinha visto aquela rocha antes? Toquei-lhe para sentir a superfície polida e foi então que a magia aconteceu: a rocha abriu-se ao meio, indicando-me uma passagem. Era uma espécie de túnel.
Entrei. Ao fundo, avistava uma luz brilhante e colorida. Quando atravessei a passagem, não queria acreditar no que os meus olhos viam: um novo mundo. Encantado, mágico, incrível. Um Paraíso!
Remei nas águas límpidas e transparentes enquanto admirava a paisagem diante de mim.
Desde esse dia, é para lá que vou. Para o meu pequeno Paraíso. Para um pequeno mundo. Só meu.

Detive-me no meio das águas e molhei os pés, olhando para a tela mais bonita do mundo. Reparei que o Paraíso está diferente hoje: tem mais luz, mais brilho, mais cores. Há um arco-íris maravilhoso que não existia antes. Contemplei-o e sorri.

Hoje, o Paraíso brinda à chegada da Primavera.

quarta-feira, 15 de março de 2006

Armadilha


Fechei os olhos e ele levou-me para um qualquer sítio.
- Dá um passo em frente. - Disse-me.
Senti um arrepio. Imaginei todos os sítios possíveis, todos os cenários imagináveis. E se fosse uma partida de mau gosto? E se me quisesse assustar?
Hesitei.
- Vem, não tenhas medo. Estou aqui para te segurar, se for preciso.
Isso queria dizer que havia a possibilidade de eu cair.
Respirei fundo.
Um burburinho agitava-se dentro de mim. Tinha de decidir. Dar um passo em frente ou não.
Dei o passo em frente e tudo parecia desaparecer à minha volta. Senti-me cair num poço vazio e desconhecido, negro como breu.
Uma sensação de vertigem apossou-se de mim. Sentia mil e uma coisas ao mesmo tempo.
Finalmente senti o meu pé tocar em terra firme.
Quando abri os olhos reparei que estava tudo exactamente igual. Ele estava de pé, com os braços estendidos. E eu só tinha avançado mais um passo na direcção dele. Não havia perigo nenhum para mim. Não havia poços, precipícios, fantasmas ou monstros.
O meu coração saltitava depressa demais. Ele abraçou-me.
Os meus sentimentos tinham-me tecido uma armadilha.
- Sabes qual é o problema das pessoas?
Fazia uma pequena ideia, mas preferi que ele me respondesse.
- É que as pessoas não se conhecem o suficiente para saberem controlar os seus sentimentos. São eles que nos fazem puxar a imaginação para além dos limites, para além do real. Criam-nos imagens que aceitamos como muito prováveis e que nos fazem sofrer por antecipação. Quando, finalmente, voltam a si - quando abrem os olhos - apercebem-se que, afinal, as coisas não eram assim tão complicadas.
A resposta já me era familiar mas, mesmo assim, não consegui ter domínio completo sobre o que se passava dentro de mim. Acho, inclusivamente, que é bom não termos controlo absoluto sobre nós. Claro que não lhe disse isso. Talvez lho dissesse quando fosse a minha vez de lhe fazer um teste.
Até lá, vamos ter de saber lidar com as armadilhas que nos aparecem pelo caminho. Cada um à sua maneira.

quarta-feira, 8 de março de 2006

Expectativas


- Sinto-me pressionada. - Desabafou a amiga.
- Então porquê? - Perguntou a outra.
- Sinto todos os olhos cravados em mim, à espera que eu tenha um deslize ou que eu faça alguma coisa contra as regras impostas.
- Estão todos expectantes. Querem saber do que és capaz. És novata, é normal que te olhem com alguma desconfiança.
- Mas isso é prejudicial.
- Só se tu quiseres que seja.
- Ora! Eu não quero, mas sinto-me de tal maneira pressionada que o meu desempenho acaba por ser comprometido, quer queira quer não.
- Ouve, quando vais ao teatro ver uma peça musical, por exemplo, fazes parte de um grupo de espectadores que têm os olhos cravados nos músicos. Se eles cedessem à pressão e se não soubessem lidar com isso, desafinavam na primeira oportunidade. Se fosses a um médico e necessitasses de uma operação, os teus olhos estariam cravados nos do médico, na esperança que ele te dissesse que vai correr tudo bem. Se ele se sentir pressionado, a operação já não vai correr bem. Em todas as profissões há pressão. Tens de aprender a lidar com ela.
- Visto assim, até parece fácil...
- Querida, não és a única a sentir-se observada. Vê o lado positivo das coisas: são esses olhos persistentes que te impelem a seguir em frente. Se fores bem sucedida, esses olhares espelham admiração!
- E se fracassar?
- Não serás a primeira nem a última. Terás de te ver onde erraste e importares-te menos com os olhares dos outros. Lembra-te que também tu tens olhos.
Ela ficou em silêncio por uns segundos e pareceu compreender a mensagem.
Só precisamos de ser o nosso melhor e de fazer o nosso melhor. Os olhares acabam por desaparecer quando não lhes dermos tanta importância.

(História criada ontem à noite, em conversa com uma amiga real)

quarta-feira, 1 de março de 2006

Às duas da manhã


Ele olhou-me. Foi um daqueles olhares que nos conseguem despir e que alcançam o que de mais profundo há em nós. Um olhar intenso, quente. Demasiadamente quente.
Tentei manter o controlo. Não desviei o olhar. Mantive-o fixo - não sem dificuldade - aos olhos pretos magnéticos que me trespassavam o corpo.
Senti uma onde de calor nascer na barriga. Um formigueiro intenso e simultaneamente agradável que nos dá a sensação de vertigem.
Ali estávamos nós, no mais velho jogo da humanidade: a sedução.
Primeiro uma troca de olhares repletos de interesse, depois uns sorrisos disfarçados para prolongar mais o jogo. E depois os gestos que nos fazem esquecer tudo e todos à nossa volta.
Mexi no cabelo.
Ele meteu o copo à boca, deixando antever uns lábios apetecíveis.
Passei a língua pelos lábios, humedecendo-os.
Ele sorriu, maliciosamente.
Cruzei as pernas e a expressão dele revelou que estava completamente rendido. Mais do que isso, a situação estava a fugir-lhe do controlo.
De novo o formigueiro na barriga.
Puxei o cabelo para trás, revelando o pescoço e um pouco do decote.
Bebi vagarosamente, até sentir a garganta inflamar com o álcool da bebida.
E foi então que ele se aproximou um pouco e me incendiou com aquele olhar provocadoramente intenso.
- A menina dança? - Perguntou.
Assenti. O meu corpo clamava por mais contacto físico.
Durante a dança, o jogo continuou, sem pressas. Apanhei-lhe o olhar no meu decote, por várias vezes. Deixei-o contemplar. Afinal de contas, era um jogo. Enquanto olhas, não tocas.
Por momentos, julguei que as coisas iam ter um final arrebatador. A sedução leva quase sempre a um fim.
A música cessara e ele fixou-me, uma vez mais, dizendo:
- Foi um prazer dançar contigo, Luna.
Uma voz calma, quente, rouca.
Se ele não fosse o meu marido, tinha achado estranho o facto de saber o meu nome.
- O prazer foi todo meu, querido. Vamos?
- Sim. Mas quando chegarmos a casa, quebramos o prometido e acabamos o jogo... - Atiçou.
- Talvez. - Respondi, tentando dominar a situação. - Se te portares bem até lá.
Ele riu-se.

A noite prometia. E ainda só eram duas da manhã.