segunda-feira, 24 de abril de 2006

Beleza


A vida diária num hospital é tudo menos agradável. Asseguro-vos disso.
Embora haja momentos de verdadeiro prazer e de surpresas agradáveis, a luta constante contra as doenças e a falta de carinho - no verdadeiro sentido da palavra - para com os doentes, torna os hospitais um local impessoal e do qual todas as pessoas querem sair o mais depressa possível.
O que deveria ser um sítio para se ir buscar Saúde, é considerado um sítio para morrer. Quem vai para o hospital, não vai de ânimo leve. Nem poderia.
Há médicos e enfermeiros excepcionais. Preocupam-se com o bem-estar do doente e até vão mais além das suas funções profissionais: são humanos. Conversam, acariciam, dão palavras de ânimo a quem precisa delas. Há outros profissionais que julgam que por usarem batas são superiores a tudo. Incluindo às doenças. Mas isso há em todo o lado e em todas as profissisões. Considero, no entanto, que quem trata de doenças, isto é, quem pretende salvar vidas, devia importar-se com a pessoa propriamente dita. Não é fácil trabalhar num hospital, mas se foi a profissão escolhida, há que exercê-la o melhor possível.
Num dia de trabalho, estive com uma senhora com os seus 83 anos de idade. Bem vividos, com alguns excessos, com imensas alegrias mas com cicatrizes que só ela sabe o que custaram a sarar.
- Laurinha, que prazer voltar a vê-la. - Disse-me quando me viu a entrar.
- Então, doçura! Como está hoje?
- Estou bem. Este quarto dá para o parque. Sempre oiço os passarinhos.
Pormenores pequenos que quase ninguém dá por eles. Só mesmo quem está no hospital há semanas.
- Que me trazes hoje para o pequeno-almoço?
- O habitual. Mas tem direito a um bocadinho de compota no pão.
- Ahhh... Isso sim, é uma boa notícia. - Riu-se.
Verifiquei se estava tudo em condições e certifiquei-me que ela estava na posição certa para comer. Ia falando com ela, nos entretantos.
- Hoje está com uma carinha óptima! Está muito bonita!
- Ora, eu sempre fui bonita!
Ri-me com a expressão dela.
- Tem razão. Mas eu só lhe conheço esta beleza.
- Ai, menina. Sabe que eu agora sinto-me mais bonita do que quando tinha 40 anos?
Escutei-a. Sabia que ela ia repetir a história de sempre. Mas fazia-lhe bem. Contar-me aquilo era como um bálsamo tónico para o seu dia. Quando eu saía dali, tinha a certeza que ela suportaria qualquer tratamento com um sorriso nos lábios.
- Sempre tive muitos pretendentes. Mas não era por ser bonita. Era porque era uma moça trabalhadeira. Desafiava tudo e todos. Cozinhava como ninguém e era muito popular. Sabe que os casamentos eram muito diferentes dos de hoje. Antigamente a beleza era uma coisa secundária. Havia quem estivesse prometida desde nascença e havia quem escolhesse o companheiro pelas qualidades que tinha. O que é certo é quando isso acontecia era para toda a vida. - Fez uma pausa para trincar um pedaço de pão com compota. - Eu não era nada bonita. Tinha uma pela sedosa, mas os meus traço eram duros. Mulher do campo, está a ver? Não eram traços como os seus! - Riu-se. - A idade ameniza as pessoas. Ameniza a dureza da vida. Sabemos que a morte vem ajustar contas connosco. Mas já não nos assusta. Chega-se a uma determinada idade e sabemos que ela vem, sorrateira. Sabemos que a vida foi vivida conforme nos foi possível. Estas rugas, Laurinha, são rugas de beleza! - Fez um sorriso na minha direcção.
Fazia-lhe festas nas mãos. A história tinha acabado. Ou pelo menos nas outras vezes acabava assim.
Foi quando me preparava para a deixar que ela me disse:
- Aproveite a sua beleza, menina. Porque nascemos com a beleza que Deus nos dá e morremos com a que merecemos.
Aquilo comoveu-me. Fitei-a, admirada.
- Estou muito sábia, não estou? - Perguntou-me a D. Idalina sorridente. - Li isso algures numa revista.
E riu-se. Um riso cheio de vida. Cheio de vivências. Cheio de orgulho.
Dei-lhe um beijo e despedi-me, convencida de que tinha aprendido mais uma lição.

sábado, 15 de abril de 2006

Vida de Marinheiro


Passei muitas noites insones, tentanto imaginar como seria o barco que me ia acompanhar nas jornadas futuras. Esbocei-o vezes sem conta. Apaguei-o e voltei a desenhá-lo até achar que o mais pequeno pormenor estava perfeito.
Travei uma luta constante contra o sono para construir o meu barco a tempo de apanhar as marés mais calmas.
As minhas mãos, calejadas pelo trabalho, não se importavam com a dureza que iam ganhando noite após noite. Havia um objectivo a atingir que era mais importante que tudo o resto. Não há marinheira que se preze se não tiver o seu próprio barco.
Não fui, contudo, uma relapsa para com o mundo que me rodeava. Pelo contrário. Se trabalhava durante a noite, era precisamente para não destruir durante o dia aquilo que tinha conquistado com tanto esforço. Noites perdidas por uma boa causa.
Quando o dia finalmente chegou, foi como se o mundo fosse, de repente, um sítio muito pequeno para se estar.
Entrei no meu barco e comecei a velejar, de cabeça erguida e olhos radiantes. Em pleno alto mar, senti a minha alma maior que o mundo. O céu já não era um limite. Era uma brincadeira de criança, comparado ao sentimento que sorria dentro de mim. Claro, nem tudo foi um mar de rosas. Apanhei ventos tormentosos, ondas gigantes, marés indescritíveis, chuvas tenebrosas. Verdadeiros infernos marítimos, se assim lhe puder chamar. Foram tantas as dificuldades que me senti desanimar. Mas desistir? Nunca me passou pela cabeça. Se assim fosse, o meu barco não teria qualquer sentido.
Fui pirata a tempo inteiro, desafiando a sorte e o destino. A bandeira, esteada, era a demonstração directa do meu orgulho, da minha razão de viver. Marinheira que sou, marinheira que serei.

Mas todos os marinheiros têm, pelo menos, um dia de gáudio. E o meu é hoje.
A 15 de Abril de 1982 nascia a audaz e empenhada marinheira L. C.!

Deixo as portas do barco abertas, para quem quiser entrar. Hoje não serei uma mera marinheira. Serei capitã!

quinta-feira, 6 de abril de 2006

À noite, chocolate...


Era uma caixa. Simples e sem grandes adornos.
Abri-a vagarosamente, como se se tratasse de algo frágil e precioso.
O laço cor-de-rosa, jazia agora no chão, ao lado dos chinelos.
Sorri, sentindo crescer água na boca, ante a visão gulosa que estava a ter.
Peguei no primeiro bombom e meti-o inteiro na boca. Era suave. Tão suave que se desfez em pouco tempo. Tinha uma nota de caramelo e uma especiaria que desconhecia.
Voltei a olhar para a caixa, repleta de pequenos bombons surpresa. Todos tinham um aspecto maravilhoso. Peguei noutro, aleatoriamente.
Sob uma camada crocante, descobri um delicioso creme de avelã.
O seguinte tinha um pequeno biscoito no meio, embebido em licor. Era delicioso.
Deixei-me escorregar pelo sofá, saboreando os sabores que se misturavam e me provocavam um tipo de prazer indescritível.
Peguei noutro bombom, de olhos fechados. Era aparentemente de chocolate normal. Desta vez, trinquei-o e um delicioso recheio de morango escorregou-me para os lábios.
- Precisas de ajuda?
A tua voz fez-me estremecer. Abri os olhos e sorri-te.
- Por acaso até preciso. Não sei se coma o bombom de chocolate preto ou o de chocolate branco.
Pegaste no bombom de chocolate preto e aproximaste-o da minha boca.
- Primeiro, o de chocolate preto. O seu sabor intenso irá preparar o paladar para melhor apreciar o chocolate branco.
- Não te sabia tão entendido em chocolates.
- Oh! Em chocolates e em muitas outras coisas!
Trincaste o chocolate e deste-me a outra metade. Os nossos olhares sugeriam uma gulodice carnal.
Juntou-se a gula à vontade de comer e o resultado foi uma noite apimentada e aromatizada com chocolate.
- Estou a ver que tenho de te dar mais caixas de chocolate. - Brincaste.
- Deves!
A caixa, agora vazia, não passava apenas de uma doce recordação.