domingo, 28 de maio de 2006

Pedro e Tartan


Meus amigos: estou viva!
O calor chegou e com ele a dormência dos (meus) sentidos.
Para vos provar que estou bem e de volta, aqui fica mais um texto inspirado. Aviso que é longo e que é necessária alguma capacidade de entendimento. Muitas mensagens foram subentendidas propositadamente.
Até breve! :)
* * *

Pedro era um garoto rebelde e curioso o suficiente para os seus 8 anos completos. Brincava sozinho, nunca alinhava em aventuras com os seus colegas e apreciava a vida campestre mais do que ninguém. Passava horas a fio junto ao rio que circundava a quinta onde vivia. Era lá onde costumava dormir a sesta.
Certo dia, porém, algo mágico aconteceu. Junto à árvore onde ele se refastelava, estava uma criatura que não devia ter mais do que 30 centímetros.
Pedro, deveras admirado, aproximou-se mais. Ouviu um ruído vindo de trás e voltou-se, com os sentidos bem acordados, à espera de um novo movimento.
Nada.
Quando voltou a olhar para a árvore, a criatura já não se encontrava lá. Deitou-se, como habitualmente, e fechou os olhos. Havia qualquer coisa no ar, ele sentia-o. O cheiro a verde, a madeira e a jasmim tinha sido substituído por uma essência doce: rosas. O cheiro era inebriante e à medida que se intensificava, Pedro ficava cada vez com mais sono. Até que adormeceu.

Quando (julgou) ter aberto os olhos, estava num mundo completamente diferente. Era noite, estava uma brisa fresca e não havia casas nem ninguém por perto. A árvore tinha desaparecido, assim como o rio, os animais, as flores. Esfregou os olhos, como se isso pudesse acordá-lo do sonho provável que estava a ter.
Nada.
- Ei tu. Vais sair do meu caminho ou tenho de passar por cima de ti?
Pedro olhou à sua volta. Não havia ninguém.
- Aqui em baixo, pá!
O espanto foi tal que Pedro só conseguiu emitir um Ohh! abafado.
Era uma tartaruga que estava a falar com ele. Como era possível?!
- Mas tu... falas?!
- Não, é o fantasma da ópera, se calhar! Claro que falo, pá. És um miúdo estranho. E então? Vais sair do meu caminho ou não?
Pedro olhou uma vez mais à sua volta, assimilando a nova realidade.
- Hello!!! Estou a falar contigo!
- És chata, tartaruga. Onde é que eu estou?
- Em Nocturn. E eu sou um macho, muito macho! Tartan, muito prazer.
- Eu sou o Pedro. Não sei como vim aqui parar... Nocturn? Nunca ouvi em tal coisa.
- Chama-se Nocturn porque aqui é sempre noite.
- Sempre? Deve se muito monótono!
- Ouve, miúdo. Preciso de continuar o meu caminho. Sais ou não?
- Porque não passas à volta?
- Estás a brincar? Não vês que ia demorar muito mais tempo?
- Então mas eu não me apetece sair daqui.
- Custa-te muito? Anda lá, meu! Baza daí.
- Não.
Pedro estava agora a meter-se com Tartan. Aquilo era tudo muito estranho.
- Está decidido então. Vou passar por cima de ti.
- Conversa! Se passares por cima de mim vais cansar-te muito mais.
Por esta e que Tartan não estava à espera. Resultava sempre com os outros.
Mas Pedro era especial. Via-o agora.
- Tens razão. É que estou demasiado velho para andar às voltas.
- E onde queres ir?
- Para a Terra. Vacton, o rei de Nocturn, disse-me que para regressar onde pertenço, tenho de dar três voltas e meia a Nocturn. Já vou na segunda. Mas isto é enorme. Já nem tenho noção de quanto tempo gastei até agora.
- Mas como vieste aqui parar?
- Não sei. Só me lembro de ver uma criatura envolta em pós mágicos e de adormecer. Acordei aqui.
- Ei! Eu também vi essa criatura! - disse pedro, alarmado. - Eu quero ir para casa outra vez! Onde está esse rei?
- Vacton não se mostra a toda a gente. O objectivo dele é povoar este planeta. Então rouba seres vivos a outros planetas.
- Isso é horrível. Exijo falar com Vacton! Leva-me até ele. - Pedro pegou em Tartan. - Anda, eu levo-te.
- Ei, põe-me no chão! Eu tenho medo das alturas.
- Não sejas medricas. Não és tu que te queixas do cansaço? Então aproveita a boleia.
- Ok. Mas vai vai devagar!
Pedro e Tartan vaguearam por Nocturn. Ao fim de algum tempo, desistiram da sua demanda por Vecton.
O tempo passava sem que eles tivesse noção disso. A noite enganava os sentidos e todas as noções adquiridas na Terra eram supérfluas e sem sentido.
Pedro sentiu uma pontada de saudade. Queria voltar.
- Há outra maneira de saires daqui. - Disse Tartan com um ar muito sério e com pena do miúdo.
- Ai sim? Diz-me então!!!
- Há um precipício perto daqui. Atiras-te de lá e vais ter direitinho à Terra.
- E porque nunca te atiraste?
Pausa.
- Porque tenho medo. Sou velho, demasiado lento e prefiro estar vivo em Nocturn do que chegar morto à Terra. Além disso, Vecton prometeu-me fazer-me regressar se desse três voltas e meia ao planeta.
- Ele está a enganar-te.
Pedro pegou em Tartan, uma vez mais, e elevou-o acima da sua cabeça.
- Pára, Pedro. Mete-me no chão!
- Não! Vamos saltar.
- Estás maluco? Vamos morrer.
- Não vamos nada.
- Mete-me IMEDIATAMENTE no chão! É uma ordem! Já!
- Já te disseram que és muito chato?
- E já te disseram que és muito teimoso?
- Por acaso, sim!
Chegaram ao precípicio.
- Bem, isto é mesmo fundo. - Disse Pedro.
- Vamos desistir.
- Não!
Aconchegou Tartan ao seu peito, respirou fundo e atirou-se!
Plof!

Pedro abriu os olhos. Levantou-se muito rapidamente. Olhou em volta.
O rio corria normalmente. Os pássaros chilreavam. A árvore portentosa fazia-lhe sombra e o cheiro a jasmim, verde e madeira inundou-lhe os sentidos.
- Ora, não passou de um sonho! - Disse em voz alta.
Foi então que olhou para o lado e viu uma tartaruga virada ao contrário.
- Tartan?
Nenhuma resposta, pois claro. As tartarugas não falam!
Mesmo assim pegou nela e elevou-a acima da sua cabeça. A tartagura não emitiu nenhum som.
Não era Tartan. Meteu-a no chão e viu a tartaruga retomar a sua marcha lenta, deixando-o para trás.
Encolheu os ombros e voltou a encostar-se à árvore, pensando no sonho que tivera.
- Parecia tão real...
Daquele dia em diante, Pedro começou a prestar mais atenção aos seus sonhos. Eram aventuras que não queria esquecer.

Os sonhos têm algo de mágico. Toda a gente devia saber disso.

segunda-feira, 8 de maio de 2006

Tempo



O tempo. Esse maroto.
Brinca comigo, faz-me viver e passa por mim com tanta rapidez que nem tenho tempo para pensar nele.
Peço desculpa pela minha ausência na blogosfera. Bem vistas as coisas não tinha de pedir desculpa. As nossas vidas estão para lá do mundo virtual, mas apeguei-me tanto a vocês que sinto a vossa falta.

Deixo-vos com mais uma experiência minha. Se tiverem tempo de lê-la :)

Abri a caixa de correio. É um hábito diário. Peguei em tudo o que estava lá dentro e meti em cima da mesa da cozinha, como sempre. Primeiro, calçar os chinelos. Depois meter-me confortável e, finalmente, fazer uma triagem à correspondência.
Uma carta do banco. Uma carta da companhia telefónica. E montanhas de publicidade.
Estava a dirigir-me para o caixote do lixo quando, enquanto revirava a publicidade, vi um envelope metido lá pelo meio. Um pouco sujo, as pontas amarrotadas, mas como uma caligrafia bem legível. Beatrice Delorme B. - Grenoble. O meu coração parou umas fracções de segundo, apanhado de surpresa. Beatrice. A minha primeira penfriend dos tempos de ciclo (coisas de escola). Correspondi-me com ela durante vários anos, sem nunca a ter visto pessoalmente. Depois, houve uma pausa. Cada uma seguiu rumos diferentes e a distância imperou.
Abri o envelope. A caligrafia continuava igual. O cheiro do papel era exactamente igual ao de antigamente e por momentos julguei estar com 15 anos e com o mesmo entusiasmo dessa idade ao abrir a carta ansiada de uma amiga distante.
Devorei-a sem a mais pequena interrupção. Era uma carta leve, despreocupada, contando as últimas. Como se ainda na semana anterior tivéssemos estado juntas. Como se o tempo que passou e nos distanciou fosse uma mera ilusão dos sentidos.
Senti um vazio na barriga. Uma espécie de formigueiro desconfortável. Dei por mim a pensar nos anos que passaram sem que eu notasse grandes diferenças.
O tempo passa. Mas os sentimentos ficam. Sei que permanecem inalteráveis. Beatrice provou-mo.

Se assim não fosse, nada teria sentido.