domingo, 19 de novembro de 2006

Espaço

Pegou na mala e saíu. Sem uma palavra.
Deixou-me ali, no meio da sala vazia, confuso e sem saber o que fazer. Como se o meu cérebro tivesse parado de funcionar. Nem um estímulo, nem uma resposta. Apenas inércia.
«Se é espaço que queres, é espaço que vais ter.»
Ela não percebia que o espaço a que eu me referia era à minha liberdade individual. Ao facto de eu poder escolher o que vou fazer daqui a dez minutos, se vou ou não beber café, se vou ou não passear pela avenida.
Ela não percebia que apesar de sermos marido e mulher, precisamos de vincular a nossa identidade, precisamos de nos sentirmos vivos, com vida própria.
Ela não percebia que o amor não se esgota mesmo quando os anos passam e os corpos se transformam. É certo, os sentimentos pregam-os partidas. Às vezes sentimos a vida desenxabida e precisamos apimentá-la. Às vezes surge a tentação, às vezes caímos nela, outras sabemos contorná-la. Mas a vida é mesmo assim.
Ela não percebia que o espaço a que eu me referia não era um espaço físico. Não era a distância. Era apenas a minha individualidade.
E eu não percebi porque é que ela se sentia tão insegura. Depois pensei. Provavelmente o espaço dela resumia-se ao meu. Acomodou-se ao longo dos anos. Ou então ela é que está certa e eu estou velho de mais para pensar em ter espaço.
Não sei.
Ela voltou horas mais tarde e com um sorriso estranho perguntou-me:
- Então, aproveitaste o teu espaço?
E eu senti-me preso numa gaiola. Não saí daquela sala nem por um minuto desde que ela saiu. Aproveitei o meu espaço?

sábado, 4 de novembro de 2006

Ilusão


Diz o jovem ao velho:
- Ainda tenho uma vida pela frente!
Diz o velho ao jovem:
- Não te iludas. Quando deres por ela, a vida já passou.

(Bom dia, meus amigos. Saudades, saudades!
Vou aproveitar para vos visitar e limpar as teias de aranha do Paraíso!)