quarta-feira, 23 de maio de 2007

O que é pior?


Tenho andado a pensar o que escrever no meu Paraíso. Há dias em que me apetece escrever histórias de encantar, crónicas para pensar, ou textos simples, com jogos de palavras e lições embutidas. Há outros dias em que não tenho qualquer inspiração - talvez pela agitação do dia-a-dia.
De qualquer forma, vou partilhar um texto que escrevi ontem para um trabalho do Curso de Língua Gestual Portuguesa (nível I) do IPJ de Aveiro.

O que é pior: cegueira ou surdez?

Diante desta pergunta, o meu primeiro pensamento foi: nenhuma destas realidades é positiva!
Ser cego implica não ver o mundo, não conhecer a nossa própria imagem, não ter acesso às luzes, às cores, às sombras, às formas, aos espaços e a tudo o que nos rodeia. Implica sobreviver num mundo desconhecido.
Ser surdo, por outro lado, também tem as suas limitações. Não se ouve o próximo, não se ouve a nossa própria voz, não se conhece os floreados da linguagem, não se tem acesso às sinfonias, aos sons mais variados na natureza. Implica sobreviver num mundo silencioso.
Ambas as realidades têm algo em comum: quem vive nelas é como se vivesse numa redoma especial com a qual tem de travar uma luta constante para conseguir adaptar-se o melhor possível. Quem vive nessa realidade, sabe as dificuldades pelas quais tem de passar para conseguir o prazer de uma simples vitória.
Helen Keller disse: a surdez é um infortúnio muito pior (do que a cegueira).
Não se pode dizer o que é pior, simplesmente porque não ter qualquer um dos sentidos, é uma perda inestimável.
No meio disto tudo, há uma coisa que me perturba ainda mais: a incapacidade que nós, pessoas ditas normais, temos em conviver com surdos ou com os cegos. Para nós eles são uns coitadinhos. Indigna-me pensar que eu também já senti pena. Agora não. Agora luto comigo mesma para conhecer a realidade deles. Limitações? É verdade que as há, mas isso não faz deles inválidos. Faz deles pessoas lutadoras, corajosas, ricas. Porque a vida já é demasiado difícil, então se o ser humano tiver pena de si próprio ou do outro, não sabe o prazer que é viver. A diferença reflecte apenas a diversidade. Hoje luto para compreender os surdos e para que eles me compreendam a mim. E está a ser uma experiência mais rica do que julguei.

Cego ou surdo? Às vezes somos ambos.
Mas façamos com que a nossa existência – e a dos outros - valha a pena.

Laura Alho
21 de Maio de 2007
Curso de Língua Gestual Portuguesa

sábado, 5 de maio de 2007

Pensamento solto


Há sempre coisas que nos transcendem. Às quais não damos importância. Coisas que ignoramos, a maior parte das vezes. O ar que respiramos. Os insectos minúsculos das plantas. Os berlindes debaixo dos móveis. Os grãos de areia embrenhados nas toalhas de praia (por mais que sacudamos, eles permanecem lá). As gotas de água (que às vezes basta uma para iniciar o caos - metaforicamente ou não). As teias de aranha em sítios recônditos nas nossas casas. Tantas coisas...
E no fim dos pensamentos enovelados, pergunto-me: quem é que repara num insecto, comparando com a dimensão das nossas vidas, com o tamanho do universo?
E nós que às vezes não somos mais do que um insecto...