domingo, 30 de setembro de 2007

O guardador de rebanhos



Cuidava cada ovelha com o mesmo gosto de há vinte anos. Conhecia-lhes as manhas, os trilhos, a maneira como se comportavam cada vez que lhes chegava perto. Umas, as mais rebeldes, fugiam-lhe e evitavam-no. Outras, as mais velhas e amorosas, permitiam-lhe um toque mas nada de muitos afagos. Havia ainda as que faziam sempre o contrário do que ele mandava. E ele preferia cansar-se a correr atrás do seu rebanho, do que envergar o seu cajado às suas companheiras.
Certa vez alguém lhe perguntou como conseguia viver com as ovelhas. Lembro-me de ouvi-lo responder:
- As ovelhas inquietam menos que os humanos e sabem mais que alguns deles.
Na altura lembro-me de tê-lo achado tão rídículo quanto sábio. Ninguém esperava aquela resposta de um solitário que, pensávamos, não conhecia a vida além do seu rebanho, embrenhado em pensamentos sabia-se lá sobre o quê. O que pensaria o pastor, afinal?
Hoje sei que estávamos todos errados. E sorrio ao lembrar-me de uma das últimas frases que lhe ouvi:
- "Sou um guardador de rebanhos, os rebanhos são os meus pensamentos..."

Mais tarde descobri que esta frase era da autoria de Alberto Caeiro.
Afinal, o guardador de rebanhos conhecia mais a vida para além do seu rebanho. Nós é que temos a mania de querer conhecer as pessoas pelas aparências, sem nos darmos ao trabalho de realmente conhecer.

domingo, 23 de setembro de 2007

Demónios

Entranham-se. Crescem. Espalham-se. Contaminam.
Fazem-me querer apertar o pescoço da pessoa que tenho à frente. Dão-me vontade de bater, de insultar, de espezinhar as pessoas pobres de espírito.
Ultimamente tenho tido pouca paciência. Se tivesse uma metralhadora, disparava nas pessoas mesquinhas com quem tenho de lidar, sem qualquer hesitação. Dou por mim a desejar que o mundo se comprima, fique pesado, e lhes caia nos ombros, só para as acordar para a vida e sentirem um bocadinho o peso da responsabilidade.
A idade costuma ser um posto. Mas cada vez mais me apercebo que a maturidade não é proporcional à idade.
Estou tão farta das intrigas, da mesquinhez, da hipocrisia das pessoas que deixo os demónios crescerem dentro de mim.
Se não tivesse uma voz interior a martelar, já os tinha libertado.
- Tem calma. Se libertares os teus demónios, vais acabar por destruir as poucas coisas boas que conseguiste com essas pessoas. E depois, não podes voltar atrás.
Ai, mas que a vontade é muita, é! Afinal, também sou humana e não tenho de aturar o mundo, sozinha!
Enquanto luto contra os meus próprios demónios ardilosos, vou deixando que as coisas passem ao lado. Mas sinto-os, eminentes.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Sem recordações



Foi com um misto de nostalgia e tristeza que olhou para o baloiço que costumava ser seu. Passou a infância a trepá-lo e fazer verdadeiros malabarismos e acrobacias. Foi junto àquele baloiço que conheceu o amor da sua vida e agora, agora apenas restavam as memórias esquivas que o tempo se encarrega de ir esbatendo.
- O que foi, avó?
- Nada, minha querida... Apenas senti o coração a bater mais forte quando olhei para aquele baloiço. Parece importante, mas não me consigo lembrar porquê...
A passear no seu próprio jardim, alheia ao que lhe pertencia por direito, continuou a caminhar em passos lentos, sorrindo para si, como se conseguisse viver sem o medo de não se lembrar.
Que haverá pior do que não ter recordações?

(história fictícia)

sábado, 8 de setembro de 2007

Entorpecimento da mente



A nossa mente é tão fascinante quanto perversa.
Pensamos que a dominamos quando, na verdade, é ela que nos domina.
Tão depressa nos leva a pensar que somos capazes de abraçar o mundo, sem qualquer esforço, como nos martiriza com pensamentos de pontas atadas. Tão atadas que já não conseguimos discernir a realidade da imaginação. Parecem indissociáveis.

Cheia de dúvidas, perguntou, em voz alta:
- Porque é que fazemos um filme quando nos apercebemos que não conhecemos a realidade tal como ela é?
A resposta veio-lhe quase instantaneamente.
Porque são nesses momentos que temos a certeza de que nada do que temos é um dado adquirido.
A ameaça está sempre presente. Mesmo nas coisas mais simples.

E é aí que a mente se torna ambígua. Tanto nos leva a procurar o equilíbrio como nos atiça com pensamentos que não se resolveram e que continuam a martelar, à espera que se desvaneçam sozinhos.

Despida de pensamentos e de copo de vinho na mão, Gabi sentou-se na varanda do seu quarto a contemplar a lua enquanto tentava, desesperadamente, encontrar uma réstea de paz interior. Se não conseguisse, sempre tinha o vinho para lhe entorpecer os sentidos.

Para os mais cépticos...


... é verdade, o Lipstick'n'Girls está mesmo de regresso.