domingo, 26 de agosto de 2012


Sentou-se no banco da estação de combóios, ao lado de pessoas macambúzias que transparecem os seus problemas nas rugas vincadas e nos gestos impacientes das suas mãos.
Olhou em volta e viu a movimentação padronizada das centenas de pessoas que aguardam combóios para os mais diversos destinos. Aparentemente, parecem gestos naturais, espontâneos, mas depois de uma série de observações, verificou que todas as ações são aprendidas, contextualizadas, estandardizadas.
Nos altifalantes, uma gravação anunciava a chegada do alfa pendular com destino a Lisboa Santa Apolónia.
Uma pontada no coração.
E de, repente, a agitação começou: as pessoas pegavam nas suas malas, alinhavam-se na zona onde era mais provável a "sua" carruagem parar, e aguardavam. Com as mesmas caras macambúzias. Com as mesmas expressões inexpressivas. Se alguém tocava acidentalmente noutra pessoa, vociferavam um "desculpe" automático, resmungado, vazio.
O combóio chegou e partiu em dois minutos. A estação ficou mais vazia, mas com personagens semelhantes. Uns sentados a fingir que lêm o jornal e a olhar por cima das folhas para alguém em particular. Outros em pé, de auscultadores nos ouvidos, refugiados na música, como se o mundo lhes devesse alguma coisa. Alguns com mochilas nas costas, claramente tranquilos. Alguns outros mais agitados que caminham na plataforma incessantemente. Certos casais a despedirem-se calorosamente (jamais desconfiando que aquele poderá ser o último beijo). E um ou outro, como Ela, que estavam ali só para observar o comportamento dos outros. Ou para reviver qualquer memória passada, como se isso a prolongasse. Estranha ideia esta, de que as memórias são "revivíveis" (acabei de inventar a palavra).
Veio mais um e outro combóio. Pessoas partiam e chegavam. Todas elas com histórias para contar. Todas elas com problemas. Todas embrenhadas no seu mundinho, sem cruzar olhares, sem gestos de cortesia, sem brilho nos olhos.
Ao fim de algum tempo, ela levantou-se. Sentiu um aperto no peito, respirou fundo e à medida que caminhava, em silêncio, cumprimentou todos aqueles que a fitavam enquanto ela passava. Eles sabiam que ela não estava ali para apanhar qualquer combóio, e ela sabia que eles iam apanhar o mesmo combóio de sempre.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Bancos de jardim


A figura quase paternal dizia-lhe num tom monocórdico e áspero:
- Há um caminho sinuoso a percorrer. Um caminho que nos faz verter muitas lágrimas, que abre muitas feridas, que deixa cicatrizes profundas no corpo e na alma. Que nos faz sentir vulneráveis e nos faz esconder sob uma capa de frieza tão frágil quanto nós.
- E para onde vamos? Quando sabemos que o nosso caminho terminou?
Ele encarou-a perplexo e proferiu:
- Não termina. Quando estiveres cansada, a vida proporciona-te uma pausa: a morte.
- E se me cansar antes?
- Aproveita todos os bancos que encontrares e senta-te. Neles, muitas pessoas se sentaram para recuperar forças ou simplesmente refletirem.
Ela sentou-se. E ali ficou. Indeterminadamente.

Imagem de Jonathan Glover.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Caminho


Não sei se quero voltar atrás ou seguir em frente. Não sei sequer o que isso quer dizer. Não sei se quero esquecer ou persistir. Não sei qual delas a melhor. Não sei se quero chorar ou sorrir. Não sei simplesmente o que fazer.
Quero despir-me destes sentimentos corrosivos. Quero retomar o caminho que desabou e me separa da felicidade. Seja lá o que isso for.
Mas, desta vez, quero percorrer o caminho com luz. Os olhos não voltarão a ser vendados.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Não acredites.


Não acredites nas pessoas que te tecem demasiados elogios. Não acredites nos silêncios inusitados. Não acredites que as pessoas são verdadeiras. Ninguém é verdadeiro. Ninguém se importa.
Não acredites naqueles que te escondem coisas. Não acredites naqueles que ignoram o que sentes. Não acredites quando te dizem "nada" quando perguntas algo. "Nada" é para os que fogem de alguma coisa. "Nada" é para os que enganam.
Não acredites em promessas. Não acredites em juras de amor. Não acredites uma única vez de que alguma coisa dura para sempre. Nada é para sempre. E ninguém dá valor.
Não acredites em ninguém, nem nos que amas, porque na primeira oportunidade vão provar-te que não importa quão próximos estão de ti - serão os primeiros a arrancarem-te o coração do peito.

Simplesmente, não acredites.

Insomnia



As noites são insones quando a voz da mente fala sem cessar. O silêncio lá de fora é interrompido pelo ruído interminável dos pensamentos que não dão descanso ao corpo, que vira e revira numa tentativa de achar uma qualquer posição confortável. Olha-se para o relógio e vê-se as horas passar com uma rapidez assustadora. O desespero traz mais pensamentos que, num fio condutor, constróem histórias que podem vir a tornar-se verdadeiras e que, se assim for, são pesadelos reais.
E quando, finalmente, nos rendemos ao cansaço, entramos num mundo quase-real de sonhos, que mais não são as manifestações dos nossos pensamentos mais bizarros.
O despertador toca pela manhã e abrimos os olhos, com a sensação de que mais valia não os abrir, porque pelo menos enquanto dormimos, nada é real.