quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Pare e pense, de uma vez por todas. [O elixir da juventude].

Encontrei uma ex-aluna minha enquanto almoçava rapidamente num centro comercial. Ela pediu para se sentar ao meu lado e eu assenti, satisfeita por vê-la.

– Não mudou nada, professora. Continua tão jovem! – Disse-me, na sua voz doce, enquanto me dava dois beijos. Sorri genuinamente, mas durou pouco. – Qual é o seu segredo? Já viu que tenho menos dez anos do que a professora e pareço a mais velha das duas? – Continuou, enquanto se sentava e ajeitava o tabuleiro com uma canja deslavada e um pão simples e aparentemente oco. Eu olhei , desconfortável, para o meu tabuleiro com um McChicken Menu. Ali estava o meu belo exemplo de “vida saudável”.

– Não sejas exagerada. – Ripostei, observando-a atentamente. Tinha um semblante entristecido e vestia roupas relativamente largas, embora com muito boa aparência. Tinha engordado um pouco mas nada que afetasse a sua beleza natural, pelo contrário. Cabelos longos encaracolados e fortes, num castanho muito escuro e brilhante. Feições ainda de menina, com olhos castanhos num formato amendoado. Pele impecável e levemente rosada.

– Engordei sete quilos em dois meses. Fui despedida há duas semanas do local onde trabalhava por não corresponder ao padrão que o público requer, segundo a gerente de loja. – Engoli o pedaço de frango a custo. O desgraçado quis ficar entalado por alguns segundos. Fiquei escandalizada com o que tinha acabado de ouvir. “Despedida por não corresponder aos padrões que o público requer?” Que padrões?! O meu ar de incredulidade deve ter tomado proporções anormais porque a “pequena” esboçou um sorriso. – Não fique assim, professora! Já arranjei outro emprego. E até melhor! – Assegurou. – Menos horas e mais dinheiro ao fim do mês.

– Sim, mas o problema é no argumento do despedimento! Que loja era? Que padrões são esses? – Já estava a começar a deixar que a revolta peçonhenta me dominasse.

– Bom, não foi bem despedimento. Simplesmente o meu contrato chegou ao fim e não mo renovaram. A gerente disse que gostou muito de me ter a trabalhar ali, mas que estava a descuidar-me com a imagem. A minha roupa está apertada porque aumentei de peso e comecei a usar estas roupas mais confortáveis e que não combinam com a maquilhagem que tinha de usar. As minhas colegas são todas mais magras do que eu. A loja tem certos padrões, sabe… Até faz um certo sentido, não acha?

Acenei negativamente com a cabeça. Não, não me faz sentido nenhum. Não, não podes achar isto normal. Não, não foi um despedimento mas foi pior do que isso: foi um pontapé na liberdade, na dignidade e no respeito pelo outro. Atirei-me numa conversa com a “minha pequena” e tentei fazê-la perceber que em lugar nenhum deste mundo alguém deve ser enxotado de um local de trabalho pela aparência. Além disso, se um funcionário está a mudar em algum aspeto, o gerente deve perceber se o problema está dentro do local de trabalho ou fora dele. Cada um de nós tem uma vida, com problemas, com desafios recorrentes e com dificuldades que ninguém consegue ver por detrás de um “bom dia, em que posso ser útil?”. Sorrisos de cordialidade e simpatia funcionam, muitas vezes, como um mecanismo de defesa. Mas só nós sabemos as dores que se escondem por trás desse sorriso. É intolerável que qualquer entidade empregadora teça este tipo de comentários e tenha este tipo de comportamento.

Ao longo da conversa, percebi que a minha ex-aluna teve um sério problema que a levou a ganhar peso (efeitos secundários indesejados). Não conseguiu entrar num ginásio porque trabalhava dois turnos por dia e porque não ganhava o suficiente para tal. Não conseguia comprar roupas novas porque o dinheiro que ganhava era para ajudar a mãe, doente, em casa e para manter a irmã mais nova na escola. A gerente de loja confundiu desleixo com uma tentativa de se manter apresentável e de fazer o seu trabalho como sempre o fez: exemplarmente. Que raio de gerentes frustrados são estes? Precisam urgentemente de formação de como gerar lucros sabendo liderar as suas equipas de trabalho, colocando-as em primeiro lugar. Equipa motivada e segura é equipa vencedora! Mas como ensinar pessoas que não fazem a mínima ideia do que é ser líder e que não gostam daquilo que fazem? Sim, porque alguém que não renova contratos com argumentos deste baixo nível, só pode ser alguém insatisfeito e que quer mostrar alguma espécie de poder sobre o outro. E digo eu, que trabalhei como funcionária em lojas para pagar os meus estudos.

Depois de muita conversa, lá soube o nome da loja. Olhei para o relógio. Ia chegar atrasada à formação que ia dar. Sem problema. Dirigi-me em passos apressados à dita. Olhei para dentro. Uma funcionária tamanho M, e outra tamanho S (sim, vi-as por tamanhos, uma vez que a “minha pequena” se assumiu de tamanho “L”). Ambas cheias de camadas de maquilhagem e trejeitos automatizados. Naquele momento, o mundo parou. Senti pena. Pena de andarmos todos preocupados com medidas e sem juízo nenhum na cabeça. Pena de as mulheres pensarem que terem mamas grandes é o sonho de qualquer homem e que ter o rabo empinado é o objetivo do mês. Pena de se concentrarem em músculos definidos e corpos plásticos exclusivamente para serem o centro das atenções e dos olhares gulosos dos outros. Pena que a celulite se tenha tornado a doença mental feminina mais prevalente do século, e que o bronzeado cor de laranja seja a cor artificial mais apelativa durante todo o ano e num espectro muito limitado que não considera tonalidades claras (“Ah, e tal porque o bronzeado está associado à saúde”. A minha resposta é: vai é cuidar da tua saúde mental, boa?). Pena que o físico seja apenas um instrumento sexual e que se torne mais importante do que a vertente intelectual ou do que o caráter da pessoa. Pena que a comunicação social sobrevalorize padrões de beleza que anulam a variedade do que é realmente belo (até a Barbie já tem Barbies de proporções realistas! – sinal de que ainda há um resquício de esperança para a humanidade). Naquele momento, senti pena por tanta gente cair no ridículo de ter as medidas perfeitas e almejadas e, ainda assim, ser infeliz e tornar a vida dos outros miserável.

A revolta, essa permaneceu enquanto olhava para o interior daquela loja que “despediu” uma miúda cheia de qualidades e lhe colocou na cabeça que a imagem que tem é mais importante do que a própria vida, as suas competências, o seu valor. Mesmo sem querer, ela compara-se com todas as mulheres que não são do tamanho dela, desejando ser, para poder ter as mesmas oportunidades. Que desigualdade é esta? Agora não é apenas a desigualdade de género é também a desigualdade de tamanhos?!

Fiquei especada a olhar para o interior da loja até me aperceber que as funcionárias olhavam curiosas para mim. Desviei o olhar. Vi o autocolante na vitrine “precisa-se colaboradora”, e pensei na “minha pequena” que, apesar de tudo, conseguiu um emprego melhor. Estuguei o passo. Olhei para todas as mulheres com quem me cruzei, de forma consciente, e apercebi-me que elas provavelmente não fazem a mínima ideia do quão bonitas e atraentes são. Os homens e as mulheres que se focam nos detalhes, nas estrias, na cor da pele, na celulite, nos tamanhos, nos dentes desalinhados, na cor do cabelo, nas tendências da moda e nas marcas, e que rebaixam os outros por não serem “perfeitos”, não são pessoas de verdade. São máquinas sexuais estilizadas em que a famosa lei de Darwin irá atuar, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde. São seres pelecípodes que jamais atingirão um nível de sabedoria que lhes permita usufruir das coisas simples e belas da vida.

Felizmente, estou imune a esse mal. E já agora, partilho convosco a resposta à primeira pergunta que a minha ex-aluna fez. O segredo da minha juventude é tão simplesmente sentir-me bem na minha própria pele. Não estou preocupada se sou a antítese ou se não estou em conformidade com os padrões de beleza. Estou em paz com a minha genética e com a pessoa que sou. E isso, é o elixir da juventude.

© Laura Alho

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