domingo, 22 de maio de 2016

"Obrigado": o substantivo mais poderoso do nosso vocabulário.

Ditam as regras da boa educação que devemos sempre agradecer a outra pessoa quando nos é dirigido um elogio ou quando nos é oferecido alguma coisa de bom grado, mesmo que não gostemos do que nos é ofertado. Enquanto crianças, engolimos em seco a desilusão e sentimos o ligeiro beliscão no nosso braço, sinal de que está na hora de esboçarmos um sorriso amarelo e mostrarmos que os nossos pais nos educaram bem. Já em adultos, a coisa torna-se mais fácil, embora não menos constrangedora. Mas o cerne da questão é o ato de agradecer por uma ação/ atitude que nos foi dirigida. Isso significa que alguém pensou em nós. Dar é uma atitude maravilhosa, mas saber receber também o deve ser. E, por vezes, somos ingratos nesse receber. 

Com a automatização das nossas vidas (sim, porque a determinada altura tornamo-nos autómatos, escravos das rotinas e do tempo), facilmente nos esquecemos do poder das palavras. Usamo-las porque são instrumentais e nos permitem comunicar com os outros e ter aquilo que queremos, mas renegamos o seu verdadeiro sentido. Dizer um “obrigado” automático é melhor do que não dizê-lo, mas seria muito mais poderoso se realmente o sentíssemos. 

Dei por mim, há dias, a refletir nisso porque tive a consciência de que não estava a sentir o que estava a dizer. Estava tão concentrada nos meus problemazinhos mundanos que não estava a dar espaço para coisas boas se manifestarem. E isto fez-me parar um pouco e dedicar algum tempo a ouvir-me e a ouvir para além de mim. Ouvi o mundo, se é que isto vos faz algum sentido (para mim fez!).
 A poluição sonora que faz parte das nossas vidas impede-nos de dar o devido valor às pequenas coisas. Precisamos de usar filtros para conseguirmos manter-nos mentalmente sãos, com tantos requisitos e exigências. 

Precisamos de ter tempo para dar valor a coisas aparentemente insignificantes mas que, na verdade, se não fossem elas, não sorriríamos tantas vezes. Precisamos de agradecer mais pelo que nos acontece nas nossas vidas e pelas pessoas que temos nelas. Além de um círculo restrito que constitui a nossa muralha protetora e o nosso berço de conforto, também temos outras pessoas que, de alguma forma, fazem parte do nosso percurso. Podem ser amigos, conhecidos, colegas ou simplesmente pessoas que conhecem o nosso trabalho. Todos, quando se aproximam sem intencionalidades dúbias, acabam por tornar alguns eventos ou alguns dias muito mais aprazíveis. 

 Apesar de até termos vidas satisfatórias e de haver inúmeras coisas pelas quais devemos agradecer diariamente, acabamos por cair num de três erros (se não mesmo nos três): tornamo-nos vítimas de nós próprios, caindo numa autocomiseração desesperante e cega; reclamamos da vida mas nada fazemos para mudá-la; ou damos tudo como garantido e, por essa razão, não atribuímos o real valor ao que temos. Em nenhum caso estamos a fazer alguma coisa saudável por (e para) nós. E certamente em nenhuma destas situações estamos a ser gratos pela oportunidade que temos de viver. 

Estudos demonstram que a gratidão tem o poder de recuperar e manter a saúde física e mental, além de atenuar os sentimentos negativos que temos em relação a nós próprios. Se conseguirmos agradecer e sentirmo-nos bem com isso, conseguimos mudar as circunstâncias da vida, pois a nossa visão sobre o mundo altera-se. Passamos a ver as situações de maneira mais positiva, além de que aprimoramos a nossa intuição e percebemos o quão protegidos e ajudados somos ao longo da vida (às vezes, por quem menos esperamos!). 

Saber agradecer é ter um poder ilimitado. Sonhamos encontrar um génio da lâmpada que nos conceda três desejos, quando temos ao nosso dispor uma palavra mágica, que não sendo “abracadabra”, nos abre tantas portas e nos proporciona tanto bem-estar. Obrigado é o substantivo mais poderoso do nosso vocabulário. Mais importante do que dizê-lo, é senti-lo verdadeiramente. Façamos da gratidão um hábito. 

A magia acontece quando existe consonância entre o que pensamos e o que sentimos. O problema é que, algures, no nosso percurso, deixámos de acreditar em magia. E esse é outro erro, porque a magia de outrora tem, nos dias de hoje, outro nome: ciência.

sábado, 14 de maio de 2016


“Mente vazia, oficina do diabo” - assim diz um ditado que, na sua sabedoria popular, me faz iniciar este desabafo. Muitos outros de teor semelhante me ocorrem para ilustrar exatamente a mesma ideia: quem não se preocupa com a sua própria vida tem que, inevitavelmente, preocupar-se com a dos outros e dar o seu parecer crítico público, ainda que o mesmo não tenha sido pedido. E lá vem ele, adornado de palavras sentidas, e... completamente gratuito e dispensável!

O ser humano tem a tendência para espreitar, pelo canto do olho, como corre a vida ao vizinho, ao amigo e ao colega de trabalho. Trata-se, provavelmente, de uma curiosidade inofensiva, uma tentativa de perceber se nos desviámos da “normalidade” e de compararmos estilos de vida. Até aqui, tudo bem. O fenómeno torna-se patológico quando se ocupa um  tempo de vida útil considerável em bisbilhotices, conversas cruzadas só para dizer mal, ou comentários isentos de qualquer filtro. Porque falar, graças a deus (ou a outra coisa qualquer), é um direito, uma liberdade! - Dizem os maledicentes de boca cheia e língua envenenada.

A má educação é atualmente um vírus que a sociedade alimenta e estimula pelos seus programas educativos ineficazes. Fala-se, por exemplo, de cyberbullying, mas muito pouco se faz para controlá-lo ou combatê-lo. É a típica reação social: primeiro todos se chocam e revoltam, depois alheiam-se e deixam que tudo caia no adormecimento (ou esperam que alguém faça alguma coisa!). Apesar de adormecido na cabeça destas pessoas, o fenómeno continua expressivo, apenas nos adaptamos a ele de uma forma completamente néscia. Não há, para mim, nada mais revoltante do que a acomodação visguenta a qualquer coisa negativa. Só revela pobreza de espírito - um outro tipo de vírus, mais resistente e com alto nível de contágio.

Para estes (ecto)parasitas sociais, a crítica é o meio de afetar os outros. Só porque sim. Dou por mim a ver vídeos no youtube sobre temas que gosto, vou ler os comentários e espanto-me com a quantidade de coisas negativas que se dizem (é o rapaz que é feio, são as unhas da fulana que são enormes, é a roupa horrível, é a fraca qualidade do vídeo, é o setting de gravação que é amador, é... é tudo, porque tudo é mau!). Depois, venho até ao facebook e deparo-me, a título de exemplo, com convites para gostar de páginas anti-fulano(a) e para grupos de cortar na casaca contra celebridades. Não sendo suficiente, enviam-me uns links de críticas e revisões sobre os meus livros. Leio-as e, de entre um conjunto significativo de críticas positivas, há também críticas negativas. Até aqui, tudo certo. Claro que enquanto escritora amadora que sou, beneficiaria muito mais se as críticas fossem concretas e me permitissem melhorar. De qualquer forma, não se pode agradar a todos! Ainda assim, o mais incrível disto tudo é que algumas das pessoas que avaliaram negativamente o(s) meu(s) livro(s), são também aquelas que me dão beijos e abraços, que me parabenizam e dizem coisas maravilhosas em apresentações oficiais, sessões de autógrafos, ou quando me encontram esporadicamente. Ora, se isso não é a hipocrisia ao seu mais alto nível, não tenho outra definição. :) A coisa boa, é que isso permite-me ser mais resiliente e, por consequência, mais exigente nas relações. Permite-me também dar menos importância a estas críticas ocas e que pretendem causar-me urticária e beliscar a minha autoestima. Lamento o fracasso da vossa missão.

Há também aqueles indivíduos que se sentem no direito de enviar emails ou mensagens privadas a dizerem o que bem entendem, sem me conhecerem de lado nenhum. A facilidade com que se aborda e critica os outros é assustadora. A gratuidade dos comentários não solicitados é deplorável. E que tal se cada um fizesse este simples exercício: sente-se confortavelmente e feche o olhos. Respire fundo 6 vezes. Quando se sentir tranquilo, responda às seguintes questões:

1) Sou feliz? Sim ou não? Se não, descubra as razões e faça alguma coisa para mudar.
2) Tenho tempo em excesso? Se sim, arranje o que fazer em vez se concentrar na vida dos outros. Ou então inspire-se neles, em vez que torná-los “alvos”. Mostre alguma inteligência emocional.
3) Passo muito tempo a falar dos outros, a pensar neles e a espalhar boatos ? Se sim, get a fuck*ng life! 


A imbecilidade das pessoas que criticam tudo acaba por ridícula. Se existem tantos haters dispostos a investir tempo e energia a falar mal dos outros, é porque os seus alvos têm algo que eles não têm e que, muito provavelmente, nunca irão ter se não abandonarem esse estilo de vida parasitário e pouco dignificante.


A boa notícia é que nunca é tarde para mudar.
A má notícia é que a mudança não é para toda a gente: é só para quem ousa ser feliz.

sábado, 7 de maio de 2016

Redes sociais que de social têm pouco

Sendo nós seres sociais, o estabelecimento de relações interpessoais e afetivas é inevitável. Na maioria das relações que estabelecemos (se não todas!), há uma fase de enamoramento (não no sentido romântico e apaixonado do termo, mas no sentido de cativar). As mais bonitas amizades com pessoas do mesmo sexo ou de sexos diferentes têm esta fase que permite diferenciá-las das demais. No entanto, embora alguns de nós tenhamos consciência de que a amizade é uma forma de amor pura e vitalícia, outros não são capazes de perceber isso ou, a determinada altura, misturam a amizade com qualquer relação de carácter romântico. 

Numa era em que as tecnologias nos privam de uma vida natural e sadia e nos fazem esquecer da infância feliz que tivemos, dos joelhos esmurrados e dos puxões de orelhas por termos feito travessuras, a maneira como estabelecemos novas amizades sofreu algumas alterações. Hoje em dia confunde-se frontalidade com dizer tudo o que apetece à distância de um telefonema, de um monitor de computador ou de uma SMS. E quando as pessoas se encontram pessoalmente, as conversas deixaram de ser profícuas para passarem a ser banais, e a dita frontalidade é apenas uma máscara ou uma vincada falta de educação (“porque tudo o que eu tenho a dizer, digo na cara”, ainda que esse ‘tudo’ seja apenas baboseiras sem sentido de alguém com um ego problemático). 

As pessoas pedem-nos “amizade” nas redes sociais. Aceitamos esses pedidos por motivações diferenciadas (e.g., são pessoas que até conhecemos, são potenciais contactos profissionais, são possibilidades, são cortesias, são números que revelam o quão popular se é). Tenho mais de 1000 contactos no meu perfil pessoal. Porquê? Porque encaro as redes sociais como isso mesmo: uma rede de contactos que me ‘aproxima’ de outras pessoas, sob o ponto de vista pessoal e profissional - e somente isso - pelo que, as minhas partilhas no mural devem ser conscienciosas e feitas de acordo com o grau de envolvência que tenho. Dessa forma, divido os contactos por grupos (amigos, conhecidos, contactos profissionais) e restrinjo as publicações a quem quero restringir. Desse universo de 1000 e poucas pessoas, conheço ou não conheço pessoalmente 79%; 20% são pessoas com quem me cruzei e/ou mantenho contacto na vida real, e apenas 2% são meus familiares ou amigos. E considero ‘amigas’ as pessoas com as quais tenho um tipo de ligação não-romântica, valiosa e que dá um sentido verdadeiro à minha existência, porque não há cobranças nem expectativas irrealistas. Há apenas partilha (por vezes, troca de argumentos em discussões acirradas, mas produtivas e nunca ofensivas). 

Uma das falácias das redes sociais é a de que nos conhecemos a todos. Isso acontece porque não temos filtros e espalhamos a nossa vida. A partir das publicações, sabemos onde fulano foi passar férias, o que fez no fim de semana, com quem esteve, etc.. A privacidade deixou de ser o desejável para se tornar um privilégio ou uma coisa ultrapassada. Depois queixamo-nos de que as pessoas não fazem mais nada senão olhar para a vida umas das outras. Irónico, não? Porque somos nós que fomentamos essa coscuvilhice! De que nos queixamos, então? Como diz o ditado popular “quem está à chuva, molha-se”. 

Outro revés das redes sociais é a necessidade imperiosa de se fazer amizades e de se fomentar encontros. Parece que ninguém está satisfeito com a vida que tem, embora se faça questão de partilhar imagens maravilhosas de uma vida que esconde vulnerabilidades. Mas ninguém precisa de saber disso. O que importa é que os outros vejam o nosso sucesso e o nosso bem-estar! Mas depois, algum tipo de insegurança bate à porta (geralmente pela calada da noite), e são nessas alturas que queremos testar as nossas capacidades de sedução ou simplesmente colmatar carências e/ou validar sentimentos sobre nós próprios (procuramos que os outros nos digam o quão atraentes e interessantes somos, o quão competentes, o quão maravilhosos...). As redes sociais aumentam egos e criam ilusões e fantasias. Potenciam expectativas e revelam o pior de nós, se não soubermos exatamente quem somos, o que queremos e porque usufruímos destas redes sociais - que também têm vantagens. 

Tudo o que é edificado a partir destes contactos fortuitos e mantido dessa forma, não tem espaço para crescer na vida real. As imagens criadas em torno de pessoas que julgamos ser fantásticas é uma espécie de castelo de cartas que vai cair (cai sempre!) mais cedo ou mais tarde. Os sentimentos que se geram com trocas de mensagens são apenas uma reação àquilo que o nosso íntimo deseja - da mesma forma que vêm, vão-se embora se não houver o cuidado de continuar a cativar. Isto é exatamente uma réplica do que acontece na vida real. Só que na vida real, investimos tempo de qualidade com as pessoas; e na vida virtual perde-se tempo e energias a criar idealizações que não passam disso mesmo. 

Há quem diga que, sendo a média de idade de 71 anos, passamos cerca de 22 anos a dormir. Pergunto-me quanto tempo de vida as nossas crianças, os nossos jovens e nós, adultos, perdemos nestas redes que nos tornam pseudo-sociais. 

 A fórmula de cálculo é simples. O resultado é assustador.